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A cozinheira Januária disse que os crentes da Assembléia de Deus estavam voltando
do templo quando viram o fantasma abrir o leque. Não ficou um. Eles nem passam
mais nessa calçada.
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Tolices de ignorantes. Não ligo pra o que dizem.
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Dona Iracema, as madames do bairro estão falando que a senhora é um travesti do
além.
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Essas socialites só sabem aparecer em revistas de celebridades inócuas. Querem
aparecer a qualquer custo. Prefiro a discrição dos jornais mais classudos.
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Eu não ia falar. Mas a senhora não é nada discreta. Olhe pra senhora. Sai na
rua vestindo esse longo ao meio dia com uma macaquinha no ombro de coleira de
rubis.
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Minha macaquinha é uma saimira
boliviensis. Cai-me bem ao ombro.
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Desculpe dona Iracema, mas dona Zuleima da mansão 65 comentou à boca pequena
que sua macaca a acaricia nas partes íntimas à noite.
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Não veria nada demais nisso. Primeiro quiseram destruir o carinho entre os
homossexuais, agora vão atacar as pequenas macaquinhas? Além do mais, são
suposições, ninguém viu isso.
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Pense, madame. Elas a vêem com a macaca no ombro e vestida desse jeito, ainda
mais com esse chapéu que parece um cone medieval. Então ficam alarmadas. E a
senhora não satisfeita de andar assim, outro dia subiu no próprio telhado e...
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Ora, Amaury, eu quis acompanhar o técnico da antena. Sou uma curiosa das
telecomunicações.
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Parecia que a antena era seu chapéu pontudo. Bateu o vento, o vestido alargou
como uma vela de nau, a senhora abriu os braços e girou. Aí paralisou o bairro inteiro
diante daquela visão.
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Amaury. No momento em que aquele vento bateu e eu girei, entrei em sintonia com
tantos quanto fossem os satélites do céu. Eu já não era mais eu se sim um
instrumento do cosmo.
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Nunca mais faça aquilo, dona Iracema. Foi uma coisa que não tem nome. Lembre-se
que as pessoas temem o que não tem nome. Há gente já querendo se mudar. Veja o
que está chegando aí embaixo na rua.
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É uma procissão?
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É uma passeata das madames do bairro, pedindo pra a senhora se mudar daqui.
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Mande elas tocarem o samba que jogo azeite quente nessa grã-finada.
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Dona Iracema, tem até repórter!
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Quem são vocês, manada?
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Fora Iracema! Fora Iracema! Fora Iracema!
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Amaury, segure a macaca que vou dar meu discurso: Ó multidão famigerada! Bando
de caloteiras! Ninguém me tira de minha vivenda. Estou aqui fazendo o que bem
entendo da minha vida. Vocês nem sabem que quem descobriu o Brasil não foi o
Cabral, e sim o navegante Vicente Yáñez Pinzón. Vão para os shoppings
comprar os horrores do design de Dubay. Vão ler coluna social pra ver o que se
passa na Ilha de Caras. Vão falar mal dos governos de centro-esquerda. Bando de
flibusteiras. Mulheres medíocres casadas com maridos pústulas. Certamente não
assistiram ao Anjo Exterminador de Buñuel, que derreteu penteados bem melhores
que os seus. Bem aventurados sejam os livres de espírito. Bem aventurados...
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Dona Iracema, a senhora está parecendo o Cristo.
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Ouçam! É mais fácil um hipopótamo entrar por uma agulha do que essa classe
média alta meia-bomba subir aos céus!
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Patroa, estão chegando os crentes. Estão jogando pedra.
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Jogue a primeira pedra quem nunca pecou!
Uma
pedra atingiu a cabeça de Iracema, que despencou da muralha de sua mansão. O
mordomo Amaury a acudiu, a multidão se dissipou, a policia chegou. No hospital
traumatológico, o médico residente a viu chegar e alardeou: “Está vindo aí uma
druida!” Iracema sobreviveu e mudou de mala e cuia para um lugarejo da Normandia.
Instalou-se num pequeno castelo em ruínas, articulou-se com o bispado e nobreza
locais e descobriu que não podia mesmo viver entre os burgueses, por mais que
fosse uma nouvelle riche. Assim, seu
pavão albino finalmente pôde desfilar em paz ao longo da alameda de tílias.
8 comentários:
Que fixação é esta por macacas, caro Nelson? No Cristianismo é o homem em estágio primitivo, escravo de seus vícios e instintos...leia-se indecência e sexualidade descontrolada. Será por isso?
Outra ótima crônica, abraços.
Muito obrigado, Wair, estou mesmo com a macaca. Mas com o pavão albino também.
Nelson:
Pode passar a receita do remedinho pra tantaaaaa criatividade...amei...rs
Abraços querido.
obrigado, Edilson, mas eu vou escrevendo sem pensar.
ahhhh, claro que a-do-rei
"NOVOS RICOS TAMBÉM CHORAM".o título é arrebatador. Jurema discursando foi demais. parabéns Nelsinho.já li a A PSICÓLOGA DA GÁVEA e nem sei o q comentar... muito bommmmmmm. fã total sempre. esperando ansiosa a próxima crônica.
beijos.
Rita
kkkkk Não é Jurema não, Rita. É Iracema.
Costumo sonhar com macacos! O que seria isso Nelson Lacan Caldas?
Não posso dizer aqui, Rodrigo.
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