
-Eu
morro de medo de largatixa.
-Lagartixa,
você quer dizer. Quer falar sobre isso?
-Fico
com medo de perder tempo falando de largatixa aqui na sessão de terapia, porque
o tempo passa, eu pago a hora e joguei dinheiro fora falando desse bicho.
-Não
é bem assim. A lagartixa te provoca horror, talvez este horror tenha ligações
com as coisas que você enfrenta no dia a dia. Portanto a lagartixa pode ser de
suma importância. O curioso é ouvir você falando dela e ela aparece.
-Ela
quem?
-A
lagartixa. Está aí na parede ao lado.
-Meu
Deus do céu! Meu Deus do céu!
-Ana
Cristina, pare de pular. Você vai criar pânico na rua inteira. Acalme-se. Veja,
a lagartixa ficou apavorada e sumiu.
-Então
ela pode aparecer em qualquer lugar a qualquer hora.
-Sim,
mas e daí? Comece pela sua infância.
-Não
sei direito. Lembro que quando criança vi aquele cantor chamado Fagner
cantando.
-E...?
-Você
já reparou que quando ele canta um refrão, nos átimos de instantes finais, ele
dá uma balançada de cabeça?
-Eu
nunca vi isso não.
-Dá
sim. Repare quando vê-lo cantando. É uma balançada bem rápida, quase uma
vibração de choque. Esse gesto me trouxe imagens alucinantes de terror.
-Eu
acho este motivo muito mesquinho pra você ter pavor das lagartixas.
-Então
ligue o youtube e veja ele cantando Coração Alado.
-Vou
sim, tirar essa prova a limpo. Está aqui o grande Fagner. Agora vem o refrão.
-Viu?
-Espere
aí. Vou ver de novo.
-E
então?
-É
verdade. Ele balança a cabeça no final dos refrões tal qual as lagartixas.
-Você
imagine uma criança de três anos vendo isso.
-Não
me interessa imaginar. Você tentou denegrir meu grande ídolo de vida. Passei
todos os anos desde 1978 amando Fagner. Seguindo seus passos. Casei três vezes
mas quando ia pra cama, eu ia com Fagner, e não com meus maridos. Aí chega uma
idiota como você e esculhamba minhas fantasias por causa de um motivo torpe.
Você é uma tarada, fica enxergando cabecinhas balançando.
-Eu
que estou impressionada com sua falta de profissionalismo. Onde já se viu
chamar uma paciente de tarada? Eu não vou pagar esta sessão.
-Ah
vai sim. Já tranquei a porta. Você está presa com a lagartixa dentro.
-Me
responda uma coisa. Foi você quem botou essa largatixa aqui dentro, não foi?
-Meus
métodos podem parecer estranhos mas são eficazes. Fui eu mesma quem botou a
lagartixa aqui; pois já conhecia a sua fobia. Alimentei-a durante semanas pra
que ela vivesse aqui. Agora só deixo você sair daqui se me marcar um encontro
com Fagner.
-Mas
como é que eu vou conseguir ligar pra Fagner, e como é que ele vai ter coragem
de ir te encontrar?
-Te
vira. A lagartixa está esperando.
-Você
me liberta se eu te botar ao telefone com Fagner?
-Sim.
Mas tem que ser rápido, que estou assoberbada de desejo e amor.
-Alô,
é Auxiliadora? Aqui Ana Cristina. Querida, preciso falar com Fagner
urgentemente.
-Oi
Ana Cristina. Ele mudou de número, mas eu tenho aqui. É este. 229408756. Vai
tentar reatar com o namoradinho, é?
-Talvez.
Beijo.
-Doutora,
consegui. Ligue pra ele. Quando ele atender, me abre a porta, não é?
-Claro,
não quero você aqui ouvindo minha conversa com Fagner. Vou ligar. Está
chamando. Alo, Fagner?
-Sim,
é o próprio. Quem é?
-Ana
Cristina vá embora daqui e não volte nunca mais.
-Adeus.
-Fagner,
aqui é a doutora Lucíola, uma fã sua, da sua voz, da sua arte.
-Mas
eu parei de pintar há muito tempo.
-Você
não é Fagner, o cantor?
-Deve
haver algum engano. Eu sou Wagner, ginecologista. Fagner é com F. É que os
nomes são muito parecidos. Há muita confusão por aí. Aliás, que nome estranho...
-Você
conhece o Fagner?
-Só
de ouvir. Gosto daquele disco “Traduzir-se”, mas acho ele meio peculiar. Canta
balançando a cabeça. Parece até uma largatixa.
-Lagartixa...
6 comentários:
Surreal!
kkkkkk Nelsinho!
ahahahahah, claro q vou ao youtube ouvir a lagartixa. coisa doida!!!
maria, agora "a louca"
largatixa.. hahahahahha... muito engraçado!
tive que ir para o youtube para ver um cantor que não gosto só por causa deste texto...
se vc fosse o terapeuta eu também não pagava a sessão.
abs!!!
Nunca tive medo de lagartixas. Até já capturei e desequei algumas na pre-adolescência. Uma delas até me passou um cobreiro.
Uma coisa é certa: sempre tive medo do Fagner.
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