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Atacaçada.
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Não entendi o que você disse.
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Atacaçada! Têre esse deê!
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Vou tirar o instrumento de sua boca. Pode falar normal agora. O que foi que
você disse?
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Eu to cansada! Não fique pensando que é fácil ficar com a boca aberta cheia de
equipamentos invasivos por mais de três horas.
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Tratamento de correção de maxilar é assim mesmo. Tem que ter paciência. Abra a
boca, continuemos.
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Atacaçada!
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Fique calma que quero lhe falar umas coisinhas. Me considero uma boa dentista,
mas o seu dentista é meu marido. Vi seu nome na agenda dele. Por que você
escolheu fazer o tratamento comigo? Achei estranho.
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Na quara abrar a baca pra am hamam. (tradução: não quero abrir minha boca pra
um homem)
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Eu sei que você dá em cima dele. Então imagino que ficou constrangida com a
possibilidade de ele ver o horror que está a sua boca.
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Ma tara daqua. Quara ar ambara! (tradução: “me tira daqui, quero ir embora!)
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Agora vai doer.
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Aaaaaah ma Daas! (tradução: “Ahhhh meu Deus”!)
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Estou sem anestesia suficiene, sinto muito. Quantas vezes você foi pra cama com
meu marido?
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Sacarra! Assa malhá á laca! (tradução: “Socorro! Essa mulher é louca!”
-
Eu perguntei quantas vezes.
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Çanca a sãs (tradução: cinco ou seis)
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Experimente meu alicate.
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Assa a tartara! A nã tanha capa da astar apaxanada!
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Tirei o instrumento. Fala.
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Eu não tenho culpa de estar apaixonada por ele. Foi uma fatalidade. Mas nem por
isso você tem o direito de me torturar. Eu vou à delegacia da mulher.
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Vai virar piada de jornal vagabundo. DONA DE CASA PROCESSA DENTISTA POR USO DE
BROCA. Mas vamos começar o trabalho.
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Começar? Não já terminou?
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Enchi da vida medíocre de dentista. Quero doravante tatuar os dentes. Você vai
ser minha cobaia.
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Não faça essa besteira!
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Agora é tarde, já comprei os pigmentos. Vou tatuar nos seus dentes a bandeira
de Minas Gerais. Não acredito que o Felipe vá mais querer beijar a sua boca.
Ele odeia tatuagens.
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É aquela bandeira com um triângulo e umas letras? Não! Escolha outros
pigmentos, aí eu topo fazer a bandeira de Alagoas. Mas não sei se você vai ter
técnica pra fazer, é mais sofisticada.
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Como é a bandeira de Alagoas?
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Ela tem uns peixinhos voando. É linda.
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Neste caso a gente pode mudar de idéia. Quero me lançar como nova celebridade,
entende?
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Agora que você me soltou, eu vou lhe dizer umas coisas. Vejo que o Felipe tinha
razão em me dizer que teria de esperar pra lhe deixar. Você é doida mesmo. Eu
não acreditava.
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Não mude de assunto. Conversávamos sobre a bandeira de Alagoas.
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Eu não acreditava que você era realmente esquizofrênica. Mas agora que sei,
sinto pena dele. Vou correndo pra Felipe agora.
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Não se mova senão enfio esta broca no seu coração.
-
Me largue. Socorro!
-
Não há ninguém por perto. Providenciei o cancelamento das consultas. Me dê seu
celular. Ahanh... Ta aqui na sua agenda Felipe fofusco. Como é que você teve a
coragem de chamar o meu marido de fofusco? Com licença, vou ligar pra ele. Alô,
Felipe. Não, não sou sua fofusca. Sou sua mulher, não está reconhecendo? Quem é
fofusca? Ah sim, uma empresa. É empresa de que? Sim, aqueles ursinhos de
pelúcia. Felipe, vamos deixar de rodeios. Estou aqui com a sua fofusca, indo
direto pra Guiana Francesa, onde tem as grandes sucuris. Vou entregá-la a uma
cobra daquelas, pois ela é minha seqüestrada. Vou pelo aeroporto de Campinas,
achei mais original. Adeus.
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Você não vai me levar pra cobra nenhuma. Que cobra é essa?
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Idiota, eu só quis despistá-lo. Deixá-lo sair correndo até Campinas e talvez,
até a Guiana Francesa. Agora vamos voltar ao nosso assunto. Cadê a bandeira de
Alagoas?
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Vamos marcar outra hora e eu trago a bandeira.
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Não. Você só sai daqui com os dentes tatuados. Vamos ver aqui no Google. Está
aqui a bandeira de Alagoas. É realmente linda. Tem umas fortalezas e uns peixes
voando. O que será que significam? Você realmente acertou. Senta. Vai ser um
trabalho lindo e meu nome será lançado nas revistas de vanguarda. “Dentista-tatuadora
quebra tabus.”
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Espere. Não se deve fazer nada na vida sem um assessor de imprensa. Como você
quer se lançar na vanguarda sem acesso às publicações? Me dá meu celular que
vou ligar pra Kenya Scott e ela te coloca na The Face, de Londres.
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Vai, toma, liga.
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Alô, É Kenya? Aqui é Lili, meu amor.
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Quem é Kenya? Aqui é Felipe. Que loucura é essa, Lili? Estou louco te
procurando com a polícia!
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Keninha, estou aqui no consultório da dentista Helena Gouveia e ela vai tatuar
meus dentes! Faça alguma coisa. O que você acha de ter meus dentes tatuados com
a bandeira de Alagoas?
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Lili! Que horror, meu Deus! E a gente veio parar em Campinas. Segura a onda aí
que já vamos acionar a polícia do Rio!
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Eu sabia que você ia ficar empolgada com a idéia. Mas querida, tem que ser
imediatamente, porque ela já está começando a me tatuar.
A
triste história de Helena Gouveia acabou num sanatório, onde ela fez amizade
com outros abandonados do amor. Lili teve seus dentes tatuados com a bandeira
de Alagoas, mas fez um excelente tratamento com Felipe, que removeu a obra. Porém,
lidando com a boca da futura mulher, não gostou da formação dentária que viu, a
abandonou e trocou por uma secretária que falava “framengo” e “iorgute”. Felipe
saiu sucessivamente trocando as mulheres por outras cada vez mais despreparadas
e as fazendo infelizes. A vida pode ser um grande desandar para todos.
7 comentários:
ah aaho e orre he rurrerrou.
eho
hiha
O que?
parabéns Nelsinho, muito bom.....
Me pergunto se a loucura dos personagens e diretamente proporcional ao devaneio do autor :-)
Excelente!!! A Maria Pia ainda e minha preferida. Beijos!
Andreia Scotto
obrigado, pessoá! A loucura é muita mesmo, mas essa foi pior.
Crônica assutadora. Lembrou-me os filmes "Maratona da Morte" e "A Pequena Loja dos Horrores".
Parabéns, Nelson.
AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHA !
Que maravilha Nelsinho!
Pense numa doida de qualidade!
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