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Minha filha, sua irmã foi passear na praia e está demorando muito. Será que não
foi comida pelo tubarão?
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Leninha não estava de roupa de banho, mamãe. Só passeando na areia com o capitão
americano.
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Que desgraça, Cecília. Esses americanos não são da nossa educação. Repare que
nossa família Gonçalves de Magalhães já completou quatrocentos anos de rididez
pia.
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É a guerra, mamãe.
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Essa guerra veio pra acabar o mundo, minha filha. E se esse americano, nas areias
da Boa Viagem, resolver deitar em cima de Leninha?
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Se for só isso, não vai ter problema.
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Eu acho que ela vai fugir com esse americano. O que é que eu digo a seu pai?
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Mamãe, se ela fugisse é porque queria. Já tem vinte e um anos.
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É como já dizia sua avó: aos quinze anos se sobe ao altar. Aos dezoito, está emperrando.
Passou vinte e um, é o último tiro da macaca. Torna-se vitalina inveterada. Ela
pode não querer esperar mais.
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Os tempos mudaram, mamãe. E a guerra vai mudar ainda mais. Eu, por exemplo, não
quero casar antes de me formar em médica.
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Se você fizer isso, seu pai lhe prende lá nas freiras de Palmares.
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Mamãe, as americanas estão arranjando emprego, sabia?
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É essa maldita guerra, que não acaba.
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Mamãe, ouvi agora no rádio. A guerra acaba de terminar.
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A guerra terminou e sua irmã não volta.
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Olhe ali. Papai está chegando. O que é que a gente diz?
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Tonico! Aconteceu uma tragédia. Leninha foi devorada pelo tubarão.
Um comentário:
Quantos "tubarões" já assombravam em Boa Viagem!
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