quinta-feira, 28 de março de 2013

NOVOS RICOS TAMBÉM CHORAM









- A cozinheira Januária disse que os crentes da Assembléia de Deus estavam voltando do templo quando viram o fantasma abrir o leque. Não ficou um. Eles nem passam mais nessa calçada.

- Tolices de ignorantes. Não ligo pra o que dizem.

- Dona Iracema, as madames do bairro estão falando que a senhora é um travesti do além.

- Essas socialites só sabem aparecer em revistas de celebridades inócuas. Querem aparecer a qualquer custo. Prefiro a discrição dos jornais mais classudos.

- Eu não ia falar. Mas a senhora não é nada discreta. Olhe pra senhora. Sai na rua vestindo esse longo ao meio dia com uma macaquinha no ombro de coleira de rubis.

- Minha macaquinha é uma saimira boliviensis. Cai-me bem ao ombro.

- Desculpe dona Iracema, mas dona Zuleima da mansão 65 comentou à boca pequena que sua macaca a acaricia nas partes íntimas à noite.

- Não veria nada demais nisso. Primeiro quiseram destruir o carinho entre os homossexuais, agora vão atacar as pequenas macaquinhas? Além do mais, são suposições, ninguém viu isso.

- Pense, madame. Elas a vêem com a macaca no ombro e vestida desse jeito, ainda mais com esse chapéu que parece um cone medieval. Então ficam alarmadas. E a senhora não satisfeita de andar assim, outro dia subiu no próprio telhado e...

- Ora, Amaury, eu quis acompanhar o técnico da antena. Sou uma curiosa das telecomunicações.

- Parecia que a antena era seu chapéu pontudo. Bateu o vento, o vestido alargou como uma vela de nau, a senhora abriu os braços e girou. Aí paralisou o bairro inteiro diante daquela visão.

- Amaury. No momento em que aquele vento bateu e eu girei, entrei em sintonia com tantos quanto fossem os satélites do céu. Eu já não era mais eu se sim um instrumento do cosmo.

- Nunca mais faça aquilo, dona Iracema. Foi uma coisa que não tem nome. Lembre-se que as pessoas temem o que não tem nome. Há gente já querendo se mudar. Veja o que está chegando aí embaixo na rua.

- É uma procissão?

- É uma passeata das madames do bairro, pedindo pra a senhora se mudar daqui.

- Mande elas tocarem o samba que jogo azeite quente nessa grã-finada.

- Dona Iracema, tem até repórter!

- Quem são vocês, manada?


- Fora Iracema! Fora Iracema! Fora Iracema!


- Amaury, segure a macaca que vou dar meu discurso: Ó multidão famigerada! Bando de caloteiras! Ninguém me tira de minha vivenda. Estou aqui fazendo o que bem entendo da minha vida. Vocês nem sabem que quem descobriu o Brasil não foi o Cabral, e sim o navegante Vicente Yáñez Pinzón. Vão para os shoppings comprar os horrores do design de Dubay. Vão ler coluna social pra ver o que se passa na Ilha de Caras. Vão falar mal dos governos de centro-esquerda. Bando de flibusteiras. Mulheres medíocres casadas com maridos pústulas. Certamente não assistiram ao Anjo Exterminador de Buñuel, que derreteu penteados bem melhores que os seus. Bem aventurados sejam os livres de espírito. Bem aventurados...

- Dona Iracema, a senhora está parecendo o Cristo.

- Ouçam! É mais fácil um hipopótamo entrar por uma agulha do que essa classe média alta meia-bomba subir aos céus!

- Patroa, estão chegando os crentes. Estão jogando pedra.

- Jogue a primeira pedra quem nunca pecou!


Uma pedra atingiu a cabeça de Iracema, que despencou da muralha de sua mansão. O mordomo Amaury a acudiu, a multidão se dissipou, a policia chegou. No hospital traumatológico, o médico residente a viu chegar e alardeou: “Está vindo aí uma druida!” Iracema sobreviveu e mudou de mala e cuia para um lugarejo da Normandia. Instalou-se num pequeno castelo em ruínas, articulou-se com o bispado e nobreza locais e descobriu que não podia mesmo viver entre os burgueses, por mais que fosse uma nouvelle riche. Assim, seu pavão albino finalmente pôde desfilar em paz ao longo da alameda de tílias.





quarta-feira, 20 de março de 2013

A PSICÓLOGA DA GÁVEA E O PROGRESSO DE LACAN






 

Psicóloga -  expresse-se! Fale livremente! Escancare-se!

Paciente - eu adoro carambolas.

Psicóloga - cara caralho bolas. Vejo aí uma força latente de uma carência irrefreável. Não percebe?

Paciente -  Eu não. Eu só falei da fruta. Posso chamar em inglês, starfruit. Aí você não vai por este caminho. Starfruit.

Psicóloga -  Star estar fruit fruta estar na fruta fruto proibido sexo gozo reprimido.

Paciente - Sinceramente eu não suporto essas associações de palavras. Não acredito nelas. Além do mais é um saco.

Psicóloga - saco testículos pênis penetração catapultação. Veja como você transita no mesmo canto.

Paciente - quem está transitando no mesmo canto é você. Deus me livre, isto é uma enganação. Um momento, que vou fazer uma ligação. Alô, Flavio? Flavio, quem foi que me indicou essa doida que só fala de sexo e jograis de palavras? Tudo o que eu digo ela parte a palavra e associa a outra, igual quando a gente brincava de mímica no Humaitá e não sabia fazer a coisa. O horror, o horror.

Psicóloga - deslique. Depois você fala do horror torpor ardor calor na bacurinha.

Paciente - desliguei. Mas a senhora entendeu que não dá mais pra frequentar aqui, né?

Psicóloga - né? Nenen, fazer nenen, foder, chupar, se melecar.

Paciente - a culpa foi minha, vou dar na minha cara.

Psicóloga - cara, caralho, caceta, cabeça da rola, ogiva descomunal...

Paciente - aqui está seu cheque só com metade do valor da consulta. Vou-me embora para nunca mais voltar. A senhora é uma daquelas invenções japonesas que pretendem substituir os psicólogos por robots. Adeus, e faça bom proveito do que a senhora chama de Lacan.

Psicóloga - Lacan can-can dançarina puta safada quenga viada filha da puta volte aqui sua escrota...

 

 




segunda-feira, 18 de março de 2013

FOBIA & OBSESSÃO






-Eu morro de medo de largatixa.

-Lagartixa, você quer dizer. Quer falar sobre isso?

-Fico com medo de perder tempo falando de largatixa aqui na sessão de terapia, porque o tempo passa, eu pago a hora e joguei dinheiro fora falando desse bicho.

-Não é bem assim. A lagartixa te provoca horror, talvez este horror tenha ligações com as coisas que você enfrenta no dia a dia. Portanto a lagartixa pode ser de suma importância. O curioso é ouvir você falando dela e ela aparece.

-Ela quem?

-A lagartixa. Está aí na parede ao lado.

-Meu Deus do céu! Meu Deus do céu!

-Ana Cristina, pare de pular. Você vai criar pânico na rua inteira. Acalme-se. Veja, a lagartixa ficou apavorada e sumiu.

-Então ela pode aparecer em qualquer lugar a qualquer hora.

-Sim, mas e daí? Comece pela sua infância.

-Não sei direito. Lembro que quando criança vi aquele cantor chamado Fagner cantando.

-E...?

-Você já reparou que quando ele canta um refrão, nos átimos de instantes finais, ele dá uma balançada de cabeça?

-Eu nunca vi isso não.

-Dá sim. Repare quando vê-lo cantando. É uma balançada bem rápida, quase uma vibração de choque. Esse gesto me trouxe imagens alucinantes de terror.

-Eu acho este motivo muito mesquinho pra você ter pavor das lagartixas.

-Então ligue o youtube e veja ele cantando Coração Alado.

-Vou sim, tirar essa prova a limpo. Está aqui o grande Fagner. Agora vem o refrão.

-Viu?

-Espere aí. Vou ver de novo.

-E então?

-É verdade. Ele balança a cabeça no final dos refrões tal qual as lagartixas.

-Você imagine uma criança de três anos vendo isso.

-Não me interessa imaginar. Você tentou denegrir meu grande ídolo de vida. Passei todos os anos desde 1978 amando Fagner. Seguindo seus passos. Casei três vezes mas quando ia pra cama, eu ia com Fagner, e não com meus maridos. Aí chega uma idiota como você e esculhamba minhas fantasias por causa de um motivo torpe. Você é uma tarada, fica enxergando cabecinhas balançando.

-Eu que estou impressionada com sua falta de profissionalismo. Onde já se viu chamar uma paciente de tarada? Eu não vou pagar esta sessão.

-Ah vai sim. Já tranquei a porta. Você está presa com a lagartixa dentro.

-Me responda uma coisa. Foi você quem botou essa largatixa aqui dentro, não foi?

-Meus métodos podem parecer estranhos mas são eficazes. Fui eu mesma quem botou a lagartixa aqui; pois já conhecia a sua fobia. Alimentei-a durante semanas pra que ela vivesse aqui. Agora só deixo você sair daqui se me marcar um encontro com Fagner.

-Mas como é que eu vou conseguir ligar pra Fagner, e como é que ele vai ter coragem de ir te encontrar?

-Te vira. A lagartixa está esperando.

-Você me liberta se eu te botar ao telefone com Fagner?

-Sim. Mas tem que ser rápido, que estou assoberbada de desejo e amor.

-Alô, é Auxiliadora? Aqui Ana Cristina. Querida, preciso falar com Fagner urgentemente.

-Oi Ana Cristina. Ele mudou de número, mas eu tenho aqui. É este. 229408756. Vai tentar reatar com o namoradinho, é?

-Talvez. Beijo.

-Doutora, consegui. Ligue pra ele. Quando ele atender, me abre a porta, não é?

-Claro, não quero você aqui ouvindo minha conversa com Fagner. Vou ligar. Está chamando. Alo, Fagner?

-Sim, é o próprio. Quem é?

-Ana Cristina vá embora daqui e não volte nunca mais.

-Adeus.

-Fagner, aqui é a doutora Lucíola, uma fã sua, da sua voz, da sua arte.

-Mas eu parei de pintar há muito tempo.

-Você não é Fagner, o cantor?

-Deve haver algum engano. Eu sou Wagner, ginecologista. Fagner é com F. É que os nomes são muito parecidos. Há muita confusão por aí. Aliás, que nome estranho...

-Você conhece o Fagner?

-Só de ouvir. Gosto daquele disco “Traduzir-se”, mas acho ele meio peculiar. Canta balançando a cabeça. Parece até uma largatixa.

-Lagartixa...




sábado, 16 de março de 2013

VERANEIO E GUERRA NA BOA VIAGEM






 

- Minha filha, sua irmã foi passear na praia e está demorando muito. Será que não foi comida pelo tubarão?

- Leninha não estava de roupa de banho, mamãe. Só passeando na areia com o capitão americano.

- Que desgraça, Cecília. Esses americanos não são da nossa educação. Repare que nossa família Gonçalves de Magalhães já completou quatrocentos anos de rididez pia.

- É a guerra, mamãe.

- Essa guerra veio pra acabar o mundo, minha filha. E se esse americano, nas areias da Boa Viagem, resolver deitar em cima de Leninha?

- Se for só isso, não vai ter problema.

- Eu acho que ela vai fugir com esse americano. O que é que eu digo a seu pai?

- Mamãe, se ela fugisse é porque queria. Já tem vinte e um anos.

- É como já dizia sua avó: aos quinze anos se sobe ao altar. Aos dezoito, está emperrando. Passou vinte e um, é o último tiro da macaca. Torna-se vitalina inveterada. Ela pode não querer esperar mais.

- Os tempos mudaram, mamãe. E a guerra vai mudar ainda mais. Eu, por exemplo, não quero casar antes de me formar em médica.

- Se você fizer isso, seu pai lhe prende lá nas freiras de Palmares.

- Mamãe, as americanas estão arranjando emprego, sabia?

- É essa maldita guerra, que não acaba.

- Mamãe, ouvi agora no rádio. A guerra acaba de terminar.

- A guerra terminou e sua irmã não volta.

- Olhe ali. Papai está chegando. O que é que a gente diz?

- Tonico! Aconteceu uma tragédia. Leninha foi devorada pelo tubarão.




sexta-feira, 15 de março de 2013

A CABEÇA






Marily acordou sem noção. Não se sentia bem. Devia ser ressaca, pensou. Pelo menos não estava com dor de cabeça. Sem conseguir lembrar da noite passada, foi ao banheiro lavar o rosto. E veio o choque. Olhou-se no espelho, não conseguiu enxergar a própria cabeça.

- Meu Deus, estou cega.

Marily ainda teve dicernimento de perceber que cega ela não estava, já que via tudo, a não ser a cabeça.

- Meu Deus, estou cega de cabeça.

Marily chorou no chão do banheiro. O telefone tocou até disparar. “Vou ligar pra  urgência oftalmológica” – pensou. O telefone tocou novamente. Ela não ia atender de novo, mas precisou pegar o fone, já que ia ter que ligar.

- Alô! – atendeu chorando.

-  Atenda o telefone, vagabunda – respondeu a voz.

- Quem fala?

- Não está reconhecendo, sua inútil?

- Bem... ainda não. Mas seja quem for, não posso falar agora, estou com problemas.

Marily desligou na cara da pessoa. Pegou o número da urgência oftalmológica e se preparou para ligar, sem conseguir. A pessoa do outro lado não havia desligado.

- Por favor, desligue! Estou precisando fazer uma ligação urgente!

- Vai ligar pra onde, traste?

- Vou chamar a ambulância!

- Não perca seu tempo.

-  Desligue! Você não sabe o que estou passando.

- Sei sim. E já que sua burrice a impede de saber quem está falando, vou ter que dizer. Aqui é a sua cabeça.

Novo choque. Marily caiu no chão, com telefone e tudo. Era sua própria cabeça quem falava do outro lado da linha. Parecia furiosa, parecia espumando.

- Estou ligando a contra-gosto.

- Como foi isso, por que você está separada de mim?

- Você perdeu a cabeça na festa do Eddie Greenhaugh. Tomou todas as drogas, copulou com cinco...

- O que é copular?

- Cale-se, ignorante! Você fudeu, se melecou, se espojou, fez seu escândalo e foi embora sem me levar. Esqueceu a bolsa, as chaves e a própria cabeça. E olhe que eu estava muito bem presa.

- Então corra pra cá, pelo amor de Deus.

- Nunquinha. Depois que me libertei de você, descobri muita coisa na minha vida. Um mundo de sensações, de pensamentos. Estou livre.

- Mas eu não posso viver sem você!

- Então por que me esqueceu, desgraçada? Fiquei aqui perdida na casa do Eddie Greenhaugh sozinha na biblioteca, escondida, magoada! – soluçou.

- Perdão! Eu nunca mais vou fazer isso!

- Não perdôo nunca – recompôs-se a cabeça – mas aí,  na minha solidão naquela biblioteca imensa, dei uma passadas nuns Kafka, nuns Dostoievsky, nuns Poe... e descobri que não preciso de você.

- Não posso ficar sem cabeça. Não sei fazer nada, só somar e diminuir.

- Puta que pariu, nem dividir e multiplicar?

- Não! E se tiver vírgula, aí é que a coisa pega. E veja bem: como vou sair de casa sem cabeça?

- Vá no closet, arranque a cabeça daquele manequim onde está o Versace e coloque uma peruca.

O corpo foi aos trancos para o closet, desatarrachou cabeça do manequim, e a enfiou  no pescoço. Olhou em volta, escolheu uma de suas perucas e meteu-a na cabeça falsa. Voltou e pegou o telefone.

- Pronto, coloquei. 

- Agora vá pro computador com a câmera ligada. Eu estou online e já te convidei  no chat.

-Espere um pouco. Já está ligado. Pronto. Cadê você?

Como um fantasma, a cabeça apareceu no monitor. O outrora bonito rosto estava agora transtornado, marcado, trágico, sob o cabelo desgrenhado. Havia um tom de tristeza, por trás de toda a fúria.

- Minha cabeça...

- Eu sabia.

- Sabia o que?

- Que você ia optar pela peruca loira. Agora sim, você escolheu sua verdadeira cabeça.

- Não! Minha cabeça é você! Como vou sair na rua com cabeça de boneca?

- Estúpida, você está em Nova Iorque. Ninguém olha pra ninguém.

- Volte, cabeça!

- Bom, voltar eu não volto, mas posso negociar uma coisa.

- Negociar o que?

- A parada é a seguinte: a gente fica se comunicando pela internet. Eu faço as suas contas por você, organizo sua vida,  e em troca, vou ditar umas coisinhas pra você escrever.

- Escrever o que?

- Pois bem: depois da temporada na biblioteca do Eddie, descobri que sou uma romancista nata. E nada me impedirá. Vou escrever um romance e você vai digitar. Comece no teclado: “Nas manhãs de domingo, enquanto os sinos das igrejas tocavam nas localidades situadas ao longo da costa...”

- Calma, que estou procurando o “n”.

- Sua lesma, você vai escrever duzentas páginas. Neste ritmo, não dá.

-  Duzentas o que? Que livro grosso é esse? Não vou conseguir.

- Se não escrever, abandono você e não ajudo em nada.

- Não faz sentido escrever duzentas páginas! Escreva você.

- Como você quer que eu escreva?

- Não sei. Escreva de bico.

- Repita o que você disse.

- Vá digitando com o nariz as letrinhas, e você consegue.

- Você me mandou escrever meu grande romance batendo o bico no teclado, como uma galinha? Eu vou aí te dar uma surra.

- Não! Eu mesma vi numa reportagem de TV,  portadores de deficiência que teclam com o toco do braço, o toco da coxa... vi até uma rendeira do Ceará que usa os berloques com os dedos dos pés... uma gente muito digna.

- Cale a boca e começa! “Nas manhãs de domingo, enquanto os sinos das igrejas tocavam nas localidades situadas ao longo da costa, todos, com suas amantes, voltavam à  casa de Gatsby...”

- Guetsby? Como se escreve isso?

- Coloque o dicionário ao seu lado, você fica consultando as palavras, que não tenho tempo pra isso. Eu só engendro grandes imaginações.

Marily olhou atordoada a estante de livros.

- Meu Deus, quanto livro... vou passar horas pra achar esse dicionário.

- Está na prateleira de baixo, estrupício.

- Os livros estão postos de lado.

- Como é que você queria que eles estivessem?

- Acontece que uns se lê de cima pra baixo. E outros , de baixo pra cima. Fico virando a cabeça o tempo todo.

- Virando que cabeça, pau mandado?

Assim, num exemplo de imagem esquizofrênica, o corpo ia girando sua cabeça de boneca

nas duas diagonais opostas, lendo os títulos escritos ora de cima para baixo, ora de baixo para cima, situação comum nas livrarias.

- Que absurdo! É por essas que não leio! Epa... tem uma coisa...

- Achou o dicionário?

- Não, mas tem um livro aqui com uma palavra no título... G..atsby. Gatsby! Então aqui deve ter tudo sobre a palavra Gatsby...

- Não precisa! Você já sabe como se escreve. Largue esse livro.

- Por que? Deixa eu abrir. Aqui... deixa eu ler... “Nas manhãs de domingo, enquanto os sinos das igrejas tocavam nas localidades situadas ao longo da costa...”

- Pegue o dicionário!

- Mas essa frase é igualzinha a que você me ditou.

- Faça o que eu mando!

- Cabeça, você já tinha escrito esse livro e esqueceu. E ainda reclamando que eu sou a esquecida, hein? Peraí... Cabeça...

- Largue, miserável!

- Cabeça, você é uma imitona. Tá aqui o nome do autor, deixa eu ler: É. Iscoti F... Fitszrslrlrlr.

- Não!

- Scott Fitzgerrald.Você não tem vergonha na cara. E ainda dizendo que é escritora.

- Eu vou aí acabar com a sua raça!

- Olhe aqui, cabeça, não sei como você pode acabar com a minha raça. Você é apenas uma cabeça, sem perna nem braço, e ainda por cima, sem nada dentro. Plagiadora. Imitona.

- Estou indo pra aí.

- Pode vir. Quero ver como você vai me dar essa surra.

- Não me pergunte isso de novo.

- Larará. Como é que você vai me dar uma surra? Ahahahah!

- Estou indo.

A cabeça desmaterializou-se na tela. Marily, despreocupada, começou a espanar a casa e a cantarolar Caetano Veloso: “Araçá azuuuuul...” Mas algo dentro dela a fez parar. E ela compreendeu. A cabeça não tinha membros para a tal surra, mas restava uma arma letal que possuía em sua totalidade e essência: a cabeçada.

Jogou o espanador no chão, correu em direção ao corredor. Tarde demais. Uma explosão esfacelou a vidraça da janela e a cabeça adentrou voando, furiosa, olhando em volta, como um espermatozóide em ziquezague,  à procura de seu antigo corpo.

Marily já tinha alcançado o fim do corredor para se trancar no quarto quando a cabeça, em projétil, lançou-se contra as suas costas. Batida seca. Marily virou-se, transida de dor. E a cabeça parou e refez o caminho em marcha-ré, para tomar impulso.

- Eu quero... escrever!

E veio nova bala. Agora atingiu seu estômago. Marily caiu no chão, segurando a barriga. A cabeça já batia contra o corpo, em movimento contínuo, atingindo os seios, os rins. O corpo entrou no quarto, e o monstro batendo. A cabeça de manequim pulou fora, em direção oposta da peruca. O corpo caiu na cama. A cabeça atrás.

- Eu quero escrever!

Era inútil esquivar-se, desanimador proteger-se. Foi só quando a cabeça a mordeu nas nádegas, que Marily resolveu lutar. Agarrou a medusa com as mãos por trás das costas, tentando arrancar a cabeça de sua bunda, antes que ela tirasse um naco. Mas ela não conseguia parar a mordida, cujos dentes trincados insistia, num urrar abafado:

- I... quire... iscriviiiii!

Marily, em seu maior esforço de vida, conseguiu retirar a cabeça de suas nádegas, segurando firme, trazendo-a apertada em suas mãos. A cama sacolejava com estrondo. A cabeça chispava, cuspia, punha a língua em riste. As pupilas giravam contornando as bordas dos olhos.

- Je voudrais écrire!

Marily ia aproximando a cabeça de seu pescoço. A cabeça, em agonia, gritou algo em acádio-sumeriano. Numa tensão sobrenatural, Marily foi pousando a cabeça em seu antigo lugar. Clock. O vazio estabeleceu-se num silêncio. Marily dormiu.

E acordou com uma dor de cabeça tremenda, numa ressaca mortal. E pensou: “Meu Deus, algo me diz  que desta vez, aprontei alguma, na casa do Eddie Greenhaugh”.



segunda-feira, 11 de março de 2013

MÓRBIDA DENTISTA






- Atacaçada.

- Não entendi o que você disse.

- Atacaçada! Têre esse deê!

- Vou tirar o instrumento de sua boca. Pode falar normal agora. O que foi que você disse?

- Eu to cansada! Não fique pensando que é fácil ficar com a boca aberta cheia de equipamentos invasivos por mais de três horas.

- Tratamento de correção de maxilar é assim mesmo. Tem que ter paciência. Abra a boca, continuemos.

- Atacaçada!

- Fique calma que quero lhe falar umas coisinhas. Me considero uma boa dentista, mas o seu dentista é meu marido. Vi seu nome na agenda dele. Por que você escolheu fazer o tratamento comigo? Achei estranho.

- Na quara abrar a baca pra am hamam. (tradução: não quero abrir minha boca pra um homem)

- Eu sei que você dá em cima dele. Então imagino que ficou constrangida com a possibilidade de ele ver o horror que está a sua boca.

- Ma tara daqua. Quara ar ambara! (tradução: “me tira daqui, quero ir embora!)

- Agora vai doer.

- Aaaaaah ma Daas! (tradução: “Ahhhh meu Deus”!)

- Estou sem anestesia suficiene, sinto muito. Quantas vezes você foi pra cama com meu marido?

- Sacarra! Assa malhá á laca! (tradução: “Socorro! Essa mulher é louca!”

- Eu perguntei quantas vezes.

- Çanca a sãs (tradução: cinco ou seis)

- Experimente meu alicate.

- Assa a tartara! A nã tanha capa da astar apaxanada!

- Tirei o instrumento. Fala.

- Eu não tenho culpa de estar apaixonada por ele. Foi uma fatalidade. Mas nem por isso você tem o direito de me torturar. Eu vou à delegacia da mulher.

- Vai virar piada de jornal vagabundo. DONA DE CASA PROCESSA DENTISTA POR USO DE BROCA. Mas vamos começar o trabalho.

- Começar? Não já terminou?

- Enchi da vida medíocre de dentista. Quero doravante tatuar os dentes. Você vai ser minha cobaia.

- Não faça essa besteira!

- Agora é tarde, já comprei os pigmentos. Vou tatuar nos seus dentes a bandeira de Minas Gerais. Não acredito que o Felipe vá mais querer beijar a sua boca. Ele odeia tatuagens.  

- É aquela bandeira com um triângulo e umas letras? Não! Escolha outros pigmentos, aí eu topo fazer a bandeira de Alagoas. Mas não sei se você vai ter técnica pra fazer, é mais sofisticada.

- Como é a bandeira de Alagoas?

- Ela tem uns peixinhos voando. É linda.

- Neste caso a gente pode mudar de idéia. Quero me lançar como nova celebridade, entende?  

- Agora que você me soltou, eu vou lhe dizer umas coisas. Vejo que o Felipe tinha razão em me dizer que teria de esperar pra lhe deixar. Você é doida mesmo. Eu não acreditava.

- Não mude de assunto. Conversávamos sobre a bandeira de Alagoas.

- Eu não acreditava que você era realmente esquizofrênica. Mas agora que sei, sinto pena dele. Vou correndo pra Felipe agora.

- Não se mova senão enfio esta broca no seu coração.

- Me largue. Socorro!

- Não há ninguém por perto. Providenciei o cancelamento das consultas. Me dê seu celular. Ahanh... Ta aqui na sua agenda Felipe fofusco. Como é que você teve a coragem de chamar o meu marido de fofusco? Com licença, vou ligar pra ele. Alô, Felipe. Não, não sou sua fofusca. Sou sua mulher, não está reconhecendo? Quem é fofusca? Ah sim, uma empresa. É empresa de que? Sim, aqueles ursinhos de pelúcia. Felipe, vamos deixar de rodeios. Estou aqui com a sua fofusca, indo direto pra Guiana Francesa, onde tem as grandes sucuris. Vou entregá-la a uma cobra daquelas, pois ela é minha seqüestrada. Vou pelo aeroporto de Campinas, achei mais original. Adeus.

- Você não vai me levar pra cobra nenhuma. Que cobra é essa?

- Idiota, eu só quis despistá-lo. Deixá-lo sair correndo até Campinas e talvez, até a Guiana Francesa. Agora vamos voltar ao nosso assunto. Cadê a bandeira de Alagoas?

- Vamos marcar outra hora e eu trago a bandeira.

- Não. Você só sai daqui com os dentes tatuados. Vamos ver aqui no Google. Está aqui a bandeira de Alagoas. É realmente linda. Tem umas fortalezas e uns peixes voando. O que será que significam? Você realmente acertou. Senta. Vai ser um trabalho lindo e meu nome será lançado nas revistas de vanguarda. “Dentista-tatuadora quebra tabus.”

- Espere. Não se deve fazer nada na vida sem um assessor de imprensa. Como você quer se lançar na vanguarda sem acesso às publicações? Me dá meu celular que vou ligar pra Kenya Scott e ela te coloca na The Face, de Londres.

- Vai, toma, liga.

- Alô, É Kenya? Aqui é Lili, meu amor.

- Quem é Kenya? Aqui é Felipe. Que loucura é essa, Lili? Estou louco te procurando com a polícia!

- Keninha, estou aqui no consultório da dentista Helena Gouveia e ela vai tatuar meus dentes! Faça alguma coisa. O que você acha de ter meus dentes tatuados com a bandeira de Alagoas?

- Lili! Que horror, meu Deus! E a gente veio parar em Campinas. Segura a onda aí que já vamos acionar a polícia do Rio!

- Eu sabia que você ia ficar empolgada com a idéia. Mas querida, tem que ser imediatamente, porque ela já está começando a me tatuar.

 

A triste história de Helena Gouveia acabou num sanatório, onde ela fez amizade com outros abandonados do amor. Lili teve seus dentes tatuados com a bandeira de Alagoas, mas fez um excelente tratamento com Felipe, que removeu a obra. Porém, lidando com a boca da futura mulher, não gostou da formação dentária que viu, a abandonou e trocou por uma secretária que falava “framengo” e “iorgute”. Felipe saiu sucessivamente trocando as mulheres por outras cada vez mais despreparadas e as fazendo infelizes. A vida pode ser um grande desandar para todos.




sábado, 9 de março de 2013

CAFUÇU RECIFENSE NEOLIBERAL RETRÔ






Eu não tenho frescura nenhuma. O que eu gosto é de estar com amigos, mas pode ter umas mulherzinhas também, pra agradar o ambiente. Já com a mulher da gente a coisa é diferente; é uma companheira, não se pode fazer tudo. Por isso eu tenho a minha lancha. O nome dela é A Firma. Aí saio com meus brother, a gente chama as menina pro alto-mar e dança rock nacional. Eu não gosto é de frescura. Porra de colunista social, etiqueta, essas viadagem. Mas não é nada contra viado, que meu cabeleireiro é meu amigo e a gente leva ele na lancha também, porque ele fica lá dando aquelas desmunhecada de fresco que é divertido, a gente ri, as menina grita, a gente belisca, é bom demais. Cababom*. Eu sou assim. Quem não gostar de mim que se foda ou vá pra longe. Me deixe aqui com meu uisquinho 12 ano, batendo papo. (...) Tem três coisas que gosto mais na vida: carro, som e mulher. E pode ser nessa ordem mesmo, que não tenho nada pra provar pra fila-da-puta nenhum. Quem quiser que dê o cu. Eu mesmo não dou. Não posso nem imaginar uma estrovenga dessa.(...) Agora minha mulher reclama que eu não viajo com ela. Porra! Agora mesmo levei ela pra America, primeiro pra Orlando e depois pra Las Vegas. Aquilo ali é o bicho. Tem até aquelas porra - a torre Eifel, o Big Ben e aquela outra torre torta, que parece que vai cair. Por mim eu mandava endireitar aquela torre. Então eu disse a Maria Cândida: Olhe aqui, a gente nem pra Europa precisa ir, já ta tudo aqui. Las Vegas é tampa de crush. É foda. (...) Eu vou dar uma butique pra Maria Cândida arranjar o que fazer e não ficar atrás de mim. Eita porra, espera aí que já bebi demais. Aí fico com vontade de ouvir música triste. Pra lembrar do dia em que fui corno. Foi foda. Coloca aí o pendrive que eu quero ouvir Bono Vox. É fuderoso.

 

* Cababom quer dizer sujeito legal.




quarta-feira, 6 de março de 2013

O CAMINHO






 

- Me passe o arroz.

- Não.

- Ferdinando, me passe o arroz.

- Eu acho essa frase de gente que tem vida besta. “Fulano, me passa a salada, Mariquinha, me passa o feijão”. Não posso, Helena.

- Nem sei o que dizer. Eu mesma pego o arroz. Obrigada.

- Você já viu algum personagem de Edgar Allan Poe ou Herman Melville dizer “me passa o arroz?”

- Só no caso de comerem em Buffet.

- Era o que faltava imaginar Roderick Usher ou o capitão Ahab comendo num quilo.

- Não seja amargo. Até imagino o que você sente. Por exemplo, tem um pior: me passa o refresco.

- É verdade, Helena, the horror, the horror.

- Estou chocada. Você quer que a gente contrate uma copeira pra nos servir à francesa?

- Com licença, vou aqui ao quarto e volto.

Helena não era uma mulher medíocre, sabia que havia algo de errado em dizer “me passe o arroz”. Mas não sabia o que fazer. Ficou olhando o arroz repassando toda a sua vida como num filme. Por isso, não percebeu que Ferdinando estava no quarto há mais de uma hora. Apareceu no alto da escada, turbante de seda na cabeça, maquiado com muito esmero; jóias, bem poucas. Só o par de brincos e colar de macassita que faiscaram no vão. O vestido era de sóbrio corte inglês. Desceu os degraus de forma perfeitamente natural, apesar de nunca, nunca ter calçado um salto alto. Helena nada disse. Ele aproximou-se com uma pequena malinha de mão.

- Não estou levando nada. Deixo casa, carro, investimentos, tudo pra você. Seja feliz, isto é uma ordem.

Ele cruzou a sacada ao meio dia em ponto, atravessou a rua que dava para um extenso capinzal, caminho que seguiu. Helena correu até a porta. Viu Ferdinando sumir no horizonte dos capins rumo à floresta longínqua que mais adiante se erguia num despenhadeiro de verde mais escuro, quase negro. Antes que desse qualquer soluço, Helena iluminou-se e sentiu um longo desejo de também traçar o mesmo caminho. Só que nua.