domingo, 3 de março de 2013

ROTA DA SEDA
















-Amara, me faça as malas. Vamos a Samarcanda. 


-Aonde, dona Laetitia? – perguntou a empregada de confiança travestida de dama de companhia.












-Esse negócio do sonho acabou não era uma coisa dos hippies?

-Me chamou de velha e isso vai ter volta depois. Vamos pra Samarcanda. Quem sabe encontro uma turminha das pesquisas da arqueologia, me dê bem e copule com os intelectuais de lá?

-E a senhora agora quer intelectual?

-Minha filha, é a nata que resta. Porque agora quem tem dinheiro perdeu a graça. O príncipe Tomazzo de Lampeduza estava errado na sua profecia: “é preciso que tudo mude pra que tudo permaneça o mesmo”. Eu corrijo “pra que tudo permaneça pior”. Veja: as classes médias altas, médias baixas, médias médias e riquíssimas negociaram entre si em conluio, e estão no mesmo nível. Aqui no Rio de Janeiro já se ouve músicas horríveis. Nenhum Schumann, nenhum Alban Berg. Uma gente de difícil acesso. Não procuro mais homem rico porque homem rico tá uma merda. Pobre, não vou nem falar, né, porque o pobre é igual ao rico; só que sem dinheiro. Vamos a Samarcanda.

-Nem sei onde é isso.

-Vá a internet e sonde uma idéia superficial. Depois te conto sua história e grandes narrativas.

-dona Laetitia, o porteiro acabou de tocar a campanhia. Ele avisou que vai entrar de férias e vai pra Samarcanda.

-O que? Você me repita isso devagar.

-Ele disse que vai pra Sa-mar-can-da.

-E quem é ele pra saber o que é Samarcanda?

-Ele disse que está entediado de ir a Nova Iorque e Paris e encontrar os colegas dele.


*Dona Laetitia a ensinou que “sinhá” é um carinho que ela gosta de ouvir.





3 comentários:

Anônimo disse...

Dona Laetitia merece mais crônicas!

Rodrigo Garcia disse...

Nelson, você é um excelente dialoguista. Além de esbanjar uma vasta cultura humanística. Parabéns e vivas a Samarcanda.

Saudações

Rodrigo Garcia

Anônimo disse...

sensacional Laetitia. realmente como disse Anônimo merce um prossegue. beijos
Rita