
A borboleta desavisada pousou no ombro do fazendeiro Mané Bilé. Com a mão direita, pá! Esmagou a delicadeza um segundo antes do inseto se localizar.
-
Adalberto, leva esse besouro daqui.
-
Papai, seu louco! Não era um besouro, era uma Danaus Plexipus, a Borboleta-monarca!
-
Borboleta-Monarca é o cacete, sua bicha safada. É tudo besouro e eu não estou
nem aí.
-
Bem que mamãe disse que ia ser um problema eu conviver com uma pessoa bruta que
nem você.
-
Já estou muito aborrecido em sustentar um parasita, ainda mais agüentar suas
frescuras. Por que você não foi morar com sua mãe?
-
Porque mamãe foi refazer a vida dela, e estou dando um tempo pra mim mesmo, tá?
E o senhor me chamou de bicha safada.
-
Perdão, Adalberto. É que eu tenho estado nervoso. Mas você não ajuda. Pois
pegue o alazão que te dei e vá vistoriar a fazenda. Que quadro é esse que você
botou na parede?
-
É uma reprodução de Salomé, do pintor austríaco Gustav Klimt.
-
Essa mulher tá com cara de maconheira. Se não for maconheira, tá gozando.
-
Pai, ela está morta. Veja a expressão dela.
-
E essa cabeça aí embaixo, quem é?
-
São João Batista.
-
Se sua avó estivesse viva, ia gostar muito de ver São João metido em putaria.
-
Pai, eu queria te pedir uma coisa.
-
Lá vem.
-
Eu queria pedir pra receber um amigo meu aqui. Ele é do Rio.
-
Rio de Janeiro. Conheceu isso onde? Ele é assim... da mesma personalidade que
você é?
-
Personalidade? Que é que o senhor quer dizer com isso?
-
Você entendeu.
-
Nada a ver, pai. Ele é surfista.
-
E surfista não pode ser da mesma personalidade que você não, é? Essa foi boa.
-
O senhor está, como sempre, muito enganado acerca do mundo.
-
Avalio. Por derradeiro, esse seu amigo é daquele lugar, Ipanema?
-
Bem...perto.
-
Seu Totonho foi visitar a irmã lá e disse que tem uma rua que só tem gente da
tua personalidade. Tomaram a rua toda. Seu Totonho disse que tava tudo
dançando.
-
É impressionante como o senhor é ignorante.
-
Vou dizer uma coisa, Adalberto. Tem uma banda minha que é ignorante sim. Mas
tem outra banda que um dia, quando você deixar de ser menina, vai saber que é o
contrário.
-
Vamos parar de ofensas. O Léo pode vir, não é?
-
Não. Estou esperando uma amiga minha.
-
Amiga? De onde?
-
Do Rio de Janeiro.
-
Eu acho engraçado o senhor. Não deixa meu amigo vir, e vai botar uma puta no lugar
da minha mãe, chiquérrima.
-
Puta não.
-
Ah, conheceu ela onde?
-
Não é da sua conta. E é bom que você trate ela muito bem, que ela é fina.
Secretária executiva.
-
Aposto que o senhor conheceu ela num congresso de secretárias executivas na
Avenida Atlântica. Pois bem: vou avisar a mamãe.
-
Pra que, infeliz?
-
A fazenda é metade dela, e ela tem umas vistorias pra fazer aqui. É bom, porque
elas se conhecem e ficam amigas.
-
Não aproxime a sua mãe de Sheila Shirley.
-
Sheila Shirley? Ahahaha!
-
Quando é que esse viado vem?
-
Hoje. Ele já está na cidade. E a sua vadia?
-
A qualquer hora.
O
silêncio se fez benfazejo para os pensamentos do pai e do filho. Olharam-se,
desviaram o olhar, olharam-se de novo. E seu Mane Bilé começou.
-
Tá bem. Mas se eu notar qualquer coisa entre vocês, qualquer safadeza, nem que
seja um olhando pro outro, eu juro que eu capo o carioca.
-
Tudo vai depender do que eu ver entre o senhor e Sheila Shirley. Vou agora
pegar o Léo na estação.
Adalberto
pegou as chaves do carro, saiu pisando firme, até chegar ao terraço, onde
acelerou o passo, fez-se serelepe, cantarolou, deu partida na Ranger e ganhou
mundo.
Ficou
seu Mane Bilé vendo o carro se afastar, até sumir, com os olhos apertados. E lá
continuou, quando viu de muito longe o carro voltar, com a suposta presa. Verdadeira
onça canguçu esperando a gazela vir beber água.
O
carro freou firme, saltou Adalberto, saltou Léo, com mochilas e bagagens.
-Pai,
esse é Leo.
Seu
Mané perscrutou tudo, cada movimento, cada detalhe do corpo bem definido na
camiseta branca e no jeans surrado. Seu Mané Bilé procurou algo. Na cor morena
dos braços nus, nas veias desenhando a virilidade, nas convexidades marcianas, no
maxilar de estátua. Seu Mane Bilé não gostava nada daquilo. Parecia entristecer-se.
Pensou nos ancestrais, no avô, no tio-bisavô, no pai e finalmente, em
Adalberto.
-
Adalberto, por que você não está carregando essa tralha toda e deixou tudo pra
ele? – falou irado.
-
Pai, ele está fazendo uma gentileza.
-
Aqui não tem esse negócio de gentileza não. Vá logo ajudando.
-
Boa tarde, seu Manuel, gaguejou o rapaz de bronze, animado com a gentileza.
Durou pouco.
-
Hum...- grunhiu seu Mané Bilé, deixando o outro a olhar a propriedade, sem
jeito.
- A gente fez umas compras, Papai. Vou
cozinhar coisas maravilhosas.
-
Aqui quem cozinha é a cozinheira. Aliás, tá na mesa.
A
mesa rústica era cumprida para os três personagens. Pai e Léo nas cabeceiras,
Adalberto no meio. Conversavam em monossílabos.
-
Sim senhor, falou Léo, o Adalberto tem sim, uma personalidade forte!
-
Porque o senhor está gritando? – retrucou seu Mané.
-
Desculpe. É que essa mesa é tão grande, que pensei que o senhor não me ouviria
bem.
-
Tá acostumado a viver em
galinheiro. Aqui tudo é grande, limpo, sem frescura.
-
Pai, é muito caro morar na zona sul do Rio. Por isso tudo lá é pequeno, apertado.
E
seu Mané olhava Léo, procurando. Caçando algum sinal. E a cada momento, o
achava mais másculo. A voz grave, as sobrancelhas cerradas, o nariz grande. Mas
o que o incomodava mais era a glote, se pronunciando imoralmente da gola. Era demais.
-
Por que você é assim? – espezinhou seu Mané.
-
Assim como, senhor?
-
Como assim, papai?
-
Assim, sozinho, sem mulher?
-
Mas eu não sou sozinho não. Tenho uma garota.
-
Garota? E cadê ela que eu não to vendo?
-
Ela ficou no Rio.
-
Então você tem uma banda que é homem... e outra banda que é mulher.
-
Papai!
-
Tenho uma banda só, seu Mané. Sou homem.
-
E o que é que você está fazendo aqui com meu filho?
-
Ele é meu amigo.
-
Pai, tenho uma coisa a dizer pro senhor.
-
Lá vem.
-
O senhor não quer privacidade com a Sheila Shirley?
-
Seu tarado de uma figa. Tá pensando em pedir privacidade também?
-
Ao contrário, pai. Eu vou passar uns dias com Léo no Rio. O senhor me dá
dinheiro?
-
Ele vai lhe levar? Então eu vou capar ele primeiro.
Seu
Mané deu um salto, Leo também. Rodaram a mesa.
Pega não pega. Roda não roda. Cai a louça, caem os copos cheios. E Léo
olhou para baixo. Vinho tinto entre as pernas. Enquanto a visão sugestiva lhe
fez subir o estômago, atiçou no outro a cólera da fera. Ainda rodaram a mesa um
atrás do outro antes de Leo correr pro quarto e se trancar. Adalberto, atracado
com o pai.
-
Papai, não faça isso!
-
Vou capar o carioca.
-
Não vai de jeito nenhum!
-
Ah, não quer que eu cape ele por que? Diga, desgraçado!
Seu
Mané segurou Adalberto pelo braço e o imobilizou no chão, segurando firme.
-
Vou amarrar você e capar o carioca!
-
Não vai de jeito nenhum!
-
Não quer que eu cape ele por que?
-
Me solta!
-
Já perguntei, afeminado, não quer que eu cape ele por que?!
Com
muita agilidade e força, o fazendeiro puxou a toalha da mesa, jogando tudo
pelos ares, torceu-a e começou a amarrar Adalberto. Uma borboleta Danaus
Plexicus que havia entrado pela janela pousou no nariz do seu Mané. Com um
grito de ódio, o fazendeiro esmurrou o próprio nariz, que sangrou. A borboleta
mártir feneceu. Adalberto livrou-se e correu pro quarto. Lá trancou-se com Léo.
Atraídos
pelo barulho, os empregados da fazenda, atônitos, olhando seu Mané, com o nariz
sangrando.
-
Seu Mané, foi Adarberto que deu no senhor? – perguntou um capataz. Seu Mane
Bilé refletiu.
-
Foi.
-
Seu Adalberto tá valente assim, seu Mané?
-
Valente sim! E tudo já pra fora, que ninguém tem nada a ver com isso.
Os
empregados correram. Seu Mane respirou. Esgueirou-se no corredor do quarto.
-
Adalberto, pode sair. Tem capação mais não. Venham pra sala os dois!
Léo
e Adalberto já chegam na sala com as mochilas e coisas penduradas de última
hora. Leo tremia nas bermudas que trocou pelas calças, por causa do vinho. Bermuda
comprida, coisa varonil. Mané Bilé o enquadrou e o estudou de novo. Às vezes, a
vida mostra que a própria esperança parece causar a solução. E a solução
brilhava tênue, muito tênue, no tornozelo do rapaz. Linda. Frágil. Uma
correntinha dourada, provavelmente vagabunda. Mané Bile não perdeu tempo.
-
O que é isso?
-
Ahã? Isso? É uma correntinha.
-
Eu só vi usar isso meu louro e puta.
-
Pai! – gritou Adalberto.
-
Foi minha namorada que me deu.
-
Deixa de falar dessa porra dessa namorada, que eu não quero saber disso!
-
Pai!
Seu
Mané pegou Léo pela gola.
-
Olhe aqui dentro do meu olho. Continue olhando.
Léo,
como que hipnotizado, deixou-se preso pelo olhar do canguçu.
-
Na relação com meu filho, você é o namorado ou a namorada?
-
...
-
Responda, derrota!
-
A namorada.
Seu
Mané largou Léo, num suspiro.
-
Adalberto, pode ir. Amanhã vou à cidade e deposito dinheiro na sua conta. Vá se
embora e leve a sua namorada pro Rio. Aqui não é lugar pra ela.
Adalberto
pega a mão do pai e a beija.
-
Bença, pai.
-
Deus te abençoe, meu filho.
Léo
e Mané Bilé se olham, estáticos, para o ato da despedida. Sem jeito, Léo
oferece a mão para um aperto. Mas Mané Bilé mantém o braço em riste, para um
outro beija-mão. Hesitante, Léo a beija.
-
Bença, seu Mané Bilé.
-
Deus te abençoe, minha filha. Cuide bem de Adalberto e obedeça a ele.
Os
dois saem com as malinhas pra fora de casa, deixando seu Mane só, no vazio da
casa. Cansado de tudo, leva a mão ao peito, e a angústia o faz sentar no chão.
E
da porta, eis que surge a flamboyant
Sheila Shirley, toda de encarnado, malas em punho, aos gritos.
-
Mané Bilé, gato-do-mato, cheguei!
Vendo
Mané no chão e atormentado, ela grita, sem classe alguma.
-
Manezinho! o que houve, meu Deus?
-
Chegue mais pro meio da sala, minha filha. Mais. Aí. Agora baixe as calçola, deixe
a periquita livre, levante a saia, abane, abane... e pulverize esta fazenda de
mulher!