
-Alô?
-Hoje
eu apanhei na cara.
-Quem
tá falando, minha gente?
-Maria
Augusta.
-Não
diga. Quem fez isso?
-O
João Pedro.
-Que
é isso, menina? O João Pedro não é de fazer isso!
Maria
Augusta, o que é que você fez?
-Nada
que ele não quisesse.
-Ninguém
apanha sem algum motivo.
-Ele
chegou do trabalho esbaforido, foi direto na gaiola, soltou minha macaca,
avançou e me tascou várias bolachas. Foi a macaca pulando e eu apanhando. Um inferno.
-Você
tem que ir à delegacia. Estamos em 1958, homem não pode bater mais em mulher.
-Depois
ele me jogou no chão. Aí a macaca pulou pela janela, desceu pelos canos. A
velha do 502 tava na calçada quando viu a macaca correr pela Barata Ribeiro.
-E
ela não gritou pra pegarem ela?
-Não.
Aquela cega disse que pensou que fosse um cachorro.
-Deve
ter pensado que era uma dessas raças estranhas que aparecem tanto nesse Rio de
Janeiro. Pois é... diz que bicho sente o clima pesado e foge. Mas esquece a macaca.
Conte o resto.
-O
João Pedro trancou-se no quarto e já saiu com mala e tudo. Ligou pra uma tal de
Sandrelle e disse que ia pra lá. Foi-se.
-Você
já tinha notado algo estranho nele, antes?
-Faz
tempo que o João Pedro não me ama mais. Não me tocava. Nem ciúmes tinha mais,
acho que porque eu fiquei gorda. Ele achava que ninguém ia mais me olhar. Nem
ele. Quando eu entrei pro espiritismo pra pedir por nós, ele ria.
-Não
sabia que você tinha entrado nessa de espiritismo.
-Passei
a ir a sessões, mas depois descobri que podia fazer isso sozinha, na minha sala,
com um copo e umas letrinhas.
-Você
tinha me dito estava fazendo reforma na sala. Fazia a sessão no meio do
barulho?
-Eu
já havia avisado a Eulálio, o pedreiro, que não se assustasse, que espiritismo
é uma coisa boa. Ele nem ligou. Continuava quebrando parede e eu falando com os
espíritos.
-Você
conversava com os espíritos?
-Conheci
Dom João VI, Rodolfo Valentino e até a Vênus de Milo.
-Mas
a Vênus de Milo não é aquela estátua aleijada?
-Não
seja ignara. E a mulher que o artista esculpiu não era gente, não?
-Bom...
não acredito nessas coisas.
-O
João Pedro me levava ao ridículo, e continuava a não ligar pra mim. Aí eu
conheci o dr. Guttemberg.
-Quem
é o dr. Gutemberg?
-O
espírito de um cientista alemão. Um homem inteligentíssimo, unha e carne com
Einstein. Dizia coisas de amor pra mim.
-Jura?
O que?
-Que
queria deitar comigo, que saberia me amar muito bem. Aí eu um dia me irritei
com o João Pedro e contei pra ele. Sabe o que ele respondeu? Que eu devia ir
pra cama com ele sim. Eu fiquei com ódio, e continuei minha amizade com o dr.
Guttemberg. Nossas conversas ficaram cada vez mais ousadas. O copo só falava
safadezas. Eu ficava suada, lânguida, arfava alto.
-Já
sei porque essa macaca fugiu.
-Aí
hoje eu me enfureci de verdade. O João Pedro me ligou da repartição perguntando
se eu fiz o estrogonofe que ele mandou. Eu disse que não, que estive ocupada
com o dr. Guttemberg. E mais: que tinha feito amor com ele. Ele riu mais uma
vez e perguntou como é que eu tinha feito amor com algo sem corpo. Aí eu
desembuchei tudo: que o dr. Guttemberg tinha corpo sim, e que tinha o “negócio”
bem grande, meio torto, em “L”. Aí
não parei mais. Contei que antes do espírito baixar, ele estava incontrolável
de desejo, aí... eu ouvi um estrondo, olhei pra trás e vi o Eulálio, o pedreiro,
caído, estrebuchando. Ele levantou, tirou a roupa e veio pra cima de mim,
dizendo que era o dr. Guttemberg. Aí chutou umas cadeiras, quebrou meu bibelô
que mamãe me deu, me pegou e me arrastou pra cama. Contei todos os detalhes pro
João Pedro: o dr. Guttemberg me chupou toda, me lanhou de cima abaixo e que eu
beijei o “negócio” dele. Aí o João Pedro disse que estava vindo pra casa pra me
talhar em duas partes, e o Eulálio também. Eu disse que o dr. Guttemberg já
tinha ido embora, seguido depois por Eulálio. E que não adiantava ele descontar
no pobre pedreiro, que ele não se lembra de nada. O resto, você já sabe. O
vexame que foi.
-Maria
Augusta, você perdeu o marido por loucura! Será que ele volta?
-Acho
que não. O dr. Guttemberg me transformou numa outra mulher. Agora sei que tenho
carnes capazes de atrair até espírito. Pobre João Pedro. Ele não sabia o que
tinha em casa. Vou
passar um batomzinho e ir à busca.
-Onde
você vai procurar o João Pedro?
-E
quem disse que vou procurar o João Pedro? Vou às boates atrás do dr.
Guttemberg. Ele pode baixar em todos os homens do mundo... é só me concentrar e chamar.