sábado, 9 de março de 2013

CAFUÇU RECIFENSE NEOLIBERAL RETRÔ






Eu não tenho frescura nenhuma. O que eu gosto é de estar com amigos, mas pode ter umas mulherzinhas também, pra agradar o ambiente. Já com a mulher da gente a coisa é diferente; é uma companheira, não se pode fazer tudo. Por isso eu tenho a minha lancha. O nome dela é A Firma. Aí saio com meus brother, a gente chama as menina pro alto-mar e dança rock nacional. Eu não gosto é de frescura. Porra de colunista social, etiqueta, essas viadagem. Mas não é nada contra viado, que meu cabeleireiro é meu amigo e a gente leva ele na lancha também, porque ele fica lá dando aquelas desmunhecada de fresco que é divertido, a gente ri, as menina grita, a gente belisca, é bom demais. Cababom*. Eu sou assim. Quem não gostar de mim que se foda ou vá pra longe. Me deixe aqui com meu uisquinho 12 ano, batendo papo. (...) Tem três coisas que gosto mais na vida: carro, som e mulher. E pode ser nessa ordem mesmo, que não tenho nada pra provar pra fila-da-puta nenhum. Quem quiser que dê o cu. Eu mesmo não dou. Não posso nem imaginar uma estrovenga dessa.(...) Agora minha mulher reclama que eu não viajo com ela. Porra! Agora mesmo levei ela pra America, primeiro pra Orlando e depois pra Las Vegas. Aquilo ali é o bicho. Tem até aquelas porra - a torre Eifel, o Big Ben e aquela outra torre torta, que parece que vai cair. Por mim eu mandava endireitar aquela torre. Então eu disse a Maria Cândida: Olhe aqui, a gente nem pra Europa precisa ir, já ta tudo aqui. Las Vegas é tampa de crush. É foda. (...) Eu vou dar uma butique pra Maria Cândida arranjar o que fazer e não ficar atrás de mim. Eita porra, espera aí que já bebi demais. Aí fico com vontade de ouvir música triste. Pra lembrar do dia em que fui corno. Foi foda. Coloca aí o pendrive que eu quero ouvir Bono Vox. É fuderoso.

 

* Cababom quer dizer sujeito legal.




quarta-feira, 6 de março de 2013

O CAMINHO






 

- Me passe o arroz.

- Não.

- Ferdinando, me passe o arroz.

- Eu acho essa frase de gente que tem vida besta. “Fulano, me passa a salada, Mariquinha, me passa o feijão”. Não posso, Helena.

- Nem sei o que dizer. Eu mesma pego o arroz. Obrigada.

- Você já viu algum personagem de Edgar Allan Poe ou Herman Melville dizer “me passa o arroz?”

- Só no caso de comerem em Buffet.

- Era o que faltava imaginar Roderick Usher ou o capitão Ahab comendo num quilo.

- Não seja amargo. Até imagino o que você sente. Por exemplo, tem um pior: me passa o refresco.

- É verdade, Helena, the horror, the horror.

- Estou chocada. Você quer que a gente contrate uma copeira pra nos servir à francesa?

- Com licença, vou aqui ao quarto e volto.

Helena não era uma mulher medíocre, sabia que havia algo de errado em dizer “me passe o arroz”. Mas não sabia o que fazer. Ficou olhando o arroz repassando toda a sua vida como num filme. Por isso, não percebeu que Ferdinando estava no quarto há mais de uma hora. Apareceu no alto da escada, turbante de seda na cabeça, maquiado com muito esmero; jóias, bem poucas. Só o par de brincos e colar de macassita que faiscaram no vão. O vestido era de sóbrio corte inglês. Desceu os degraus de forma perfeitamente natural, apesar de nunca, nunca ter calçado um salto alto. Helena nada disse. Ele aproximou-se com uma pequena malinha de mão.

- Não estou levando nada. Deixo casa, carro, investimentos, tudo pra você. Seja feliz, isto é uma ordem.

Ele cruzou a sacada ao meio dia em ponto, atravessou a rua que dava para um extenso capinzal, caminho que seguiu. Helena correu até a porta. Viu Ferdinando sumir no horizonte dos capins rumo à floresta longínqua que mais adiante se erguia num despenhadeiro de verde mais escuro, quase negro. Antes que desse qualquer soluço, Helena iluminou-se e sentiu um longo desejo de também traçar o mesmo caminho. Só que nua.




segunda-feira, 4 de março de 2013

O GORDO E O MAGRO






 

- Maria Carmem, eu tenho pena de você. Nunca arrumou um namorado nem nada.

- Eu já arranjei sim, aquele Edivilson.

- Técnico da televisão não vale. Chegou aqui pra consertar a TV, tava de fogo e pegou a primeira que viu. Só tinha você dentro de casa, não foi?

- Sozinha.

- Então inclusive vejo a possibilidade daquilo tudo ser mentira, e nem o Edivilson te quis. Você não tem curvas nem carnes. Por que você não se mata?

- Eu não me mato porque tenho esperança.

- Pois não devia ter.

- Francisca, então porque você não se mata?

- Pra que eu ia me matar?

- Porque você é ruim. Desconta toda a sua frustração me reduzindo a um fiapo

- Você não é mais que isso.

- Além do mais, falando com toda a sinceridade, acho você parecida com o rinoceronte.

- Olha lá que já namorei muito.

- Muito não. Namorou o doutor Eleutério e eu sei porque.

- Por que, inseto?

- Já me disseram que o doutor Eleutério tem uma tara por mulheres imensas. Tem filmes pornô só com mulheres acima dos duzentos quilos. A polícia já foi lá porque denunciaram que ele assediou uma obesa de menor.

- Sua ignorante, você já viu os quadros de Rubens, nos bons museus do mundo?

- Vi, e ali tinha gordinhas de celulite, não um caminhão.

- Então você quer que eu me mate?

- Eu pego a carabina de caça de papai pra você.

- Vou me matar fazendo greve de fome. Vou começar a murchar.

- Vai sobrar pele.

- Depois de perder tudo e estiver já com um pé lá e outro cá, me encaminharei ao cirurgião plástico que me fará glamurosa. Sabe pra que estou fazendo todo este sacrifício, Maria Carmem? Pra você me ver linda e finalmente resolver se matar.

- Então você me ama, Francisca.  

- É verdade. Sou apaixonada por você. Mas não tinha coragem de dizer, então eu só atacava. Teria nos poupado muitos dissabores. Passei a vida tentando te prejudicar, botando complexos, trocando seus comprimidos de suplementos vitamínicos por remédios pra emagrecer. Eu queria ver você caveira. Tudo isso porque te amo. Finalmente tive coragem de dizer.

- Mas Francisca, eu estou apaixonada por alguém.

- Então eu vou quebrar essa casa inteira. Olhe aqui o que faço com sua televisão.

- Você jogou a minha televisão pela janela.

- Agora me jogue pela janela também.

- Só se for com o guincho.

- Má! Má! Má!

- Com licença que estou com o técnico Edivilson ao telefone. Alô, Edi, Venha correndo pra cá. O rinoceronte branco que passou a vida me escangalhando agora escangalhou minha televisão. Mas não passe por baixo da minha janela, porque é capaz do bicho cair em cima de você, o mate, destrua nossa felicidade e ainda se salve.   


domingo, 3 de março de 2013

ROTA DA SEDA
















-Amara, me faça as malas. Vamos a Samarcanda. 


-Aonde, dona Laetitia? – perguntou a empregada de confiança travestida de dama de companhia.












-Esse negócio do sonho acabou não era uma coisa dos hippies?

-Me chamou de velha e isso vai ter volta depois. Vamos pra Samarcanda. Quem sabe encontro uma turminha das pesquisas da arqueologia, me dê bem e copule com os intelectuais de lá?

-E a senhora agora quer intelectual?

-Minha filha, é a nata que resta. Porque agora quem tem dinheiro perdeu a graça. O príncipe Tomazzo de Lampeduza estava errado na sua profecia: “é preciso que tudo mude pra que tudo permaneça o mesmo”. Eu corrijo “pra que tudo permaneça pior”. Veja: as classes médias altas, médias baixas, médias médias e riquíssimas negociaram entre si em conluio, e estão no mesmo nível. Aqui no Rio de Janeiro já se ouve músicas horríveis. Nenhum Schumann, nenhum Alban Berg. Uma gente de difícil acesso. Não procuro mais homem rico porque homem rico tá uma merda. Pobre, não vou nem falar, né, porque o pobre é igual ao rico; só que sem dinheiro. Vamos a Samarcanda.

-Nem sei onde é isso.

-Vá a internet e sonde uma idéia superficial. Depois te conto sua história e grandes narrativas.

-dona Laetitia, o porteiro acabou de tocar a campanhia. Ele avisou que vai entrar de férias e vai pra Samarcanda.

-O que? Você me repita isso devagar.

-Ele disse que vai pra Sa-mar-can-da.

-E quem é ele pra saber o que é Samarcanda?

-Ele disse que está entediado de ir a Nova Iorque e Paris e encontrar os colegas dele.


*Dona Laetitia a ensinou que “sinhá” é um carinho que ela gosta de ouvir.





sexta-feira, 1 de março de 2013

A YOGUE














Waldemar focalizava a mulher nua do calendário, pregado ao longe, no interior do posto de gasolina.
- O que é que você está olhando ali dentro - perguntou a esposa, ambos ao lado do carro, com o frentista.
- Estou querendo ver que dia é hoje.
- O máximo que dá pra ver daqui é aquela mulher nua, seu tarado.
- Não faça isso não! – berrou o frentista – o senhor vai matar a gente!
- Pelo amor de Deus, Waldemar! – gritou a mullher.
Correram todos que estavam no posto. É que, distraído, Waldemar tinha acendido um fósforo junto do frentista que enchia um galão de gasolina. Por um triz, tudo não foi pelos ares. O frentista se acocorou de susto. A esposa gritava.
- Eu bem que sabia que um dia você ia me explodir, é o que você quer!
Waldemar, transido de vergonha, segurava o cigarro frouxo no bico. Entrou no carro. A esposa pagou pelo galão, aboletou-o na parte de trás da perua, e seguiram viagem.

-As férias começaram muito bem, seu Waldemar. Explodir tudo por causa de uma mulher de calendário.
-Também... pra que encher um galão de gasolina se a gente tava com o tanque cheio?
-Porque não sabemos quando vamos encontrar um posto na tal trilha que você quis fazer. Imagina a gente ficar no meio do mato.

Um mar se descortina na frente deles. Uma praia longínqua, estendida de infinito a infinito. Dunas e jardins selvagens orlando tudo.
- Tô estressado. Vamos dar uma paradinha. Tá muito bonito, e não tem viva alma!
Pararam, tiraram cerveja gelada do contêiner, sentaram numa duna enrodilhada de jibóias e observavam embevecidos. Tudo era um templo. E com os ventos alísios, veio por trás do casal, a mulher mais bonita do mundo. De biquíni. Em direção ao mar. Parou no meio e, diáfana, pôs-se na posição de lótus, a meditar.
Waldemar boquiaberto.
D. Catarina fazendo bico.

- Fale, Waldemar. Fale o que você está com vontade de dizer.
- Não estou com vontade de dizer nada.
- Seja sincero, seu covarde, diga o que você disse pra si mesmo.
- Eu não falo sozinho.
- Mas pensou. E vamos deixar de rodeios. O que você achou daquela moça que sentou ali?
- Moça? Qual? Ah, aquela ali? Não sei...
- Fala! É do seu estilo, não é?
- Na verdade, muito meditabunda pro meu gosto.
- Por que você escolheu esta palavra?
- Quis dizer que me parece muito pensativa, reflexiva...
- Quero saber porque a palavra escolhida foi meditabunda.Você podia ter escolhido meditante...
- Aí é erro de português.
- Eu sou meditabunda?
- Não acho não.
- Por que não sou meditabunda?
- Não vejo você meditar. Se fosse meditabunda, não dizia besteira.
- Filho da puta (aos prantos)! Você só escolheu a palavra pra me ironizar, dizendo que ela tem bunda e eu não.
- Você é paranóica. Não acho a sua bunda feia.
- Não é feia? Isso é muito pouco, seu Waldemar. Muito pouco. Saiba que eu vou ajeitar a minha bunda com o dr. Petrônio Aguiar e vou mandar a conta pra você!

Neste momento, ou na eternidade, a bela se levanta como um esguicho. E começa a alongar os músculos com a languidez das panteras.
Mais um silêncio.
- Ela está se exibindo, Waldemar. E você vendo.
- Estou parado aqui desde que cheguei. Não mudei o ângulo da minha cabeça, veja, tá vendo?
- Não mudou o ângulo da cabeça mas as bolinhas do olho mudaram pra esquerda. Meu Deus, eu queria saber como é que num lugar deserto desse, aparece essa descarada. E ainda veio parar exatamente na sua frente. O que é isso?
- Azar, minha filha, azar.
- Não tem hotel nem casa por perto. De onde ela veio?
- É realmente estranho. Sei lá... vai ver não é gente, é anjo.
- Anjo, canalha?
- Quero dizer um anjo, uma entidade, uma caipora, sei lá.

De costas para o casal, a beleza desamarra a parte superior do biquíni.

- Waldemar... não estou acreditando. Eu vou lá tomar satisfações.
- Se você for, pego o carro e te deixo sozinha com ela.
- Você seria capaz? Waldem... vamos embora agora!
- Parei pra descansar e daqui não saio.

Waldemar transpira, tem tiques rápidos, pisca muito.
A beleza abaixa a parte de baixo. Nua, ainda de costas, caminha em direção ao mar, num ritmo que, tanto para Waldemar como para Dona Catarina, teve efeito de slow-motion. Ela mergulha em slow-motion, e em slow-motion são as águas que explodem quando ela afunda. Mais silêncio. Ela não volta à tona.

- Cadê a puta?
- Meu Deus, deve estar morrendo afogada! Vou lá!
Waldemar chega quase a ficar em pé quando Dona Catarina lança-se contra ele e se engalfinham na areia.
- Não vai! Ela vai te puxar pro fundo!
- Ela vai morrer!
- Não, paspalho, veja ela ali! Olha lá a cabecinha da desgraçada.
Exaustos, voltaram à mesma posição, numa tensão de emitir raios, porque tudo indicava que a bela se dirigia de volta para areia, agora de frente.

A tarja do mar lhe ia descendo os ombros. Os seios, o ventre, a pélvis e, finalmente, aquilo que era o começo e o fim de tudo. Depois veio o resto, ela inteiriça. Pisando nas nuvens até o lugar original, sítio sagrado. Dona Catarina, gaga.

- nã...não olhe.
- Não consigo. Juro que não consigo. Quer dizer, não sou eu, entrou uma coisa em mim, não sou eu. Sou um cavalo branco que vai levá-la montada.

Dona Catarina cravou as unhas no chão e jogou areia nos olhos dele. Cego e desesperado, o cavalo branco esfregava as vistas para enxergar sua revelação. Virou a lata de cerveja inteira nos olhos. Foi a deixa. Dona Catarina foi até o carro. Ruídos de coisas batendo, de porta fechando, e outros barulhos. Waldemar virou outra cerveja nos olhos. Dona Catarina marchou até a deusa, deitada de bruços, alheia a tudo. Como estava molhada, a bela não percebeu o líquido sendo derramado no seu corpo. Só um cheiro de posto, porque Dona Catarina derramou o galão de gasolina em toda ela. Antes que a bela desse conta, o fósforo caiu em suas costas.

A explosão foi imediata. Waldemar viu a Vênus voar para o nada, cair, levantar de novo e rodar em chamas. A girar, a girar, talvez procurando o caminho do mar, mas já não conseguia achar. Correu para eles, uma pira estridente sem rumo, os gestos de possessa, o rosto trincado da dor. Ele, que já não era mais ele, viu que ela já não era mais ela. Caiu de joelhos. À sua frente, os olhos fora das órbitas, a pele rubra e negra, uma descamação de árvore velha, o urro dos danados. Caiu nas palhas secas, que se juntaram ao inferno. Waldemar contemplando a crescente deformação. A bela é a horrível. A beleza pousa nas pessoas como uma borboleta, e logo as abandona. Waldemar não pensou, mas compreendeu.

- Vamos logo, Waldemar, precisamos salvar você.
- Salvar?... a mim?
- Sim, quando a polícia achar, não vai entender nada.
- Mas foi você quem fez isso...
- Claro que foi você. Há algumas horas antes, você tentou explodir o posto de gasolina, todo mundo viu. Não teve êxito. Aí queimou a primeira que encontrou. É só eu abrir o bico e eles ligam os fatos.
- Catarina!
- Entra no carro, imbecil, vou te salvar.
Waldemar entrou como um velho urso obediente. Dona Catarina deu partida. Ele nem prestou atenção que ela falava ao celular. Só olhava a fogueira que deixava. Que deixou.
- Catarina, vamos voltar pra casa – soluçou.
- Sim, pintinho, já estamos indo, mas antes, vamos passar no consultório do dr. Petrônio Aguiar, acabei de marcar a consulta. Você fica na sala de espera. Vai ser rapidinho. Vou falar sobre o ajeitamento da minha bunda. O preço, vou pedir pra ele dividir. Depois a gente vai pra casa, tá?  Eu te amo.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

MANÉ BILÉ











A borboleta desavisada pousou no ombro do fazendeiro Mané Bilé. Com a mão direita, pá! Esmagou a delicadeza um segundo antes do inseto se localizar.

 
- Adalberto, leva esse besouro daqui.
- Papai, seu louco! Não era um besouro, era uma Danaus Plexipus, a Borboleta-monarca!
- Borboleta-Monarca é o cacete, sua bicha safada. É tudo besouro e eu não estou nem aí.
- Bem que mamãe disse que ia ser um problema eu conviver com uma pessoa bruta que nem você.
- Já estou muito aborrecido em sustentar um parasita, ainda mais agüentar suas frescuras. Por que você não foi morar com sua mãe?
- Porque mamãe foi refazer a vida dela, e estou dando um tempo pra mim mesmo, tá? E o senhor me chamou de bicha safada.
- Perdão, Adalberto. É que eu tenho estado nervoso. Mas você não ajuda. Pois pegue o alazão que te dei e vá vistoriar a fazenda. Que quadro é esse que você botou na parede?
- É uma reprodução de Salomé, do pintor austríaco Gustav Klimt.
- Essa mulher tá com cara de maconheira. Se não for maconheira, tá gozando.
- Pai, ela está morta. Veja a expressão dela.
- E essa cabeça aí embaixo, quem é?
- São João Batista.
- Se sua avó estivesse viva, ia gostar muito de ver São João metido em putaria.
- Pai, eu queria te pedir uma coisa.
- Lá vem.
- Eu queria pedir pra receber um amigo meu aqui. Ele é do Rio.
- Rio de Janeiro. Conheceu isso onde? Ele é assim... da mesma personalidade que você é?
- Personalidade? Que é que o senhor quer dizer com isso?
- Você entendeu.
- Nada a ver, pai. Ele é surfista.
- E surfista não pode ser da mesma personalidade que você não, é? Essa foi boa.
- O senhor está, como sempre, muito enganado acerca do mundo.
- Avalio. Por derradeiro, esse seu amigo é daquele lugar, Ipanema?
- Bem...perto.
- Seu Totonho foi visitar a irmã lá e disse que tem uma rua que só tem gente da tua personalidade. Tomaram a rua toda. Seu Totonho disse que tava tudo dançando.
- É impressionante como o senhor é ignorante.
- Vou dizer uma coisa, Adalberto. Tem uma banda minha que é ignorante sim. Mas tem outra banda que um dia, quando você deixar de ser menina, vai saber que é o contrário.
- Vamos parar de ofensas. O Léo pode vir, não é?
- Não. Estou esperando uma amiga minha.
- Amiga? De onde?
- Do Rio de Janeiro.
- Eu acho engraçado o senhor. Não deixa meu amigo vir, e vai botar uma puta no lugar da minha mãe, chiquérrima.
- Puta não.
- Ah, conheceu ela onde?
- Não é da sua conta. E é bom que você trate ela muito bem, que ela é fina. Secretária executiva.
- Aposto que o senhor conheceu ela num congresso de secretárias executivas na Avenida Atlântica. Pois bem: vou avisar a mamãe.
- Pra que, infeliz?
- A fazenda é metade dela, e ela tem umas vistorias pra fazer aqui. É bom, porque elas se conhecem e ficam amigas.
- Não aproxime a sua mãe de Sheila Shirley.
- Sheila Shirley? Ahahaha!
- Quando é que esse viado vem?
- Hoje. Ele já está na cidade. E a sua vadia?
- A qualquer hora.

O silêncio se fez benfazejo para os pensamentos do pai e do filho. Olharam-se, desviaram o olhar, olharam-se de novo. E seu Mane Bilé começou.
 
- Tá bem. Mas se eu notar qualquer coisa entre vocês, qualquer safadeza, nem que seja um olhando pro outro, eu juro que eu capo o carioca.
- Tudo vai depender do que eu ver entre o senhor e Sheila Shirley. Vou agora pegar o Léo na estação.
 
Adalberto pegou as chaves do carro, saiu pisando firme, até chegar ao terraço, onde acelerou o passo, fez-se serelepe, cantarolou, deu partida na Ranger e ganhou mundo.
Ficou seu Mane Bilé vendo o carro se afastar, até sumir, com os olhos apertados. E lá continuou, quando viu de muito longe o carro voltar, com a suposta presa. Verdadeira onça canguçu esperando a gazela vir beber água.
O carro freou firme, saltou Adalberto, saltou Léo, com mochilas e bagagens.
 
-Pai, esse é Leo.
 
Seu Mané perscrutou tudo, cada movimento, cada detalhe do corpo bem definido na camiseta branca e no jeans surrado. Seu Mané Bilé procurou algo. Na cor morena dos braços nus, nas veias desenhando a virilidade, nas convexidades marcianas, no maxilar de estátua. Seu Mane Bilé não gostava nada daquilo. Parecia entristecer-se. Pensou nos ancestrais, no avô, no tio-bisavô, no pai e finalmente, em Adalberto.
 
- Adalberto, por que você não está carregando essa tralha toda e deixou tudo pra ele? – falou irado.
- Pai, ele está fazendo uma gentileza.
- Aqui não tem esse negócio de gentileza não. Vá logo ajudando.
- Boa tarde, seu Manuel, gaguejou o rapaz de bronze, animado com a gentileza. Durou pouco.
- Hum...- grunhiu seu Mané Bilé, deixando o outro a olhar a propriedade, sem jeito.
 - A gente fez umas compras, Papai. Vou cozinhar coisas maravilhosas.
- Aqui quem cozinha é a cozinheira. Aliás, tá na mesa.
A mesa rústica era cumprida para os três personagens. Pai e Léo nas cabeceiras, Adalberto no meio. Conversavam em monossílabos.
- Sim senhor, falou Léo, o Adalberto tem sim, uma personalidade forte!
- Porque o senhor está gritando? – retrucou seu Mané.
- Desculpe. É que essa mesa é tão grande, que pensei que o senhor não me ouviria bem.
- Tá acostumado a viver em galinheiro. Aqui tudo é grande, limpo, sem frescura.
- Pai, é muito caro morar na zona sul do Rio. Por isso tudo lá é pequeno, apertado.
 
E seu Mané olhava Léo, procurando. Caçando algum sinal. E a cada momento, o achava mais másculo. A voz grave, as sobrancelhas cerradas, o nariz grande. Mas o que o incomodava mais era a glote, se pronunciando imoralmente da gola. Era demais.
 
- Por que você é assim? – espezinhou seu Mané.  
- Assim como, senhor?
- Como assim, papai?
- Assim, sozinho, sem mulher?
- Mas eu não sou sozinho não. Tenho uma garota.
- Garota? E cadê ela que eu não to vendo?
- Ela ficou no Rio.
- Então você tem uma banda que é homem... e outra banda que é mulher.
- Papai!
- Tenho uma banda só, seu Mané. Sou homem.
- E o que é que você está fazendo aqui com meu filho?
- Ele é meu amigo.
- Pai, tenho uma coisa a dizer pro senhor.
- Lá vem.
- O senhor não quer privacidade com a Sheila Shirley?
- Seu tarado de uma figa. Tá pensando em pedir privacidade também?
- Ao contrário, pai. Eu vou passar uns dias com Léo no Rio. O senhor me dá dinheiro?
- Ele vai lhe levar? Então eu vou capar ele primeiro.
 
Seu Mané deu um salto, Leo também. Rodaram a mesa.  Pega não pega. Roda não roda. Cai a louça, caem os copos cheios. E Léo olhou para baixo. Vinho tinto entre as pernas. Enquanto a visão sugestiva lhe fez subir o estômago, atiçou no outro a cólera da fera. Ainda rodaram a mesa um atrás do outro antes de Leo correr pro quarto e se trancar. Adalberto, atracado com o pai.
 
- Papai, não faça isso!
- Vou capar o carioca.
- Não vai de jeito nenhum!
- Ah, não quer que eu cape ele por que? Diga, desgraçado!
 
Seu Mané segurou Adalberto pelo braço e o imobilizou no chão, segurando firme.
 
- Vou amarrar você e capar o carioca!
- Não vai de jeito nenhum!
- Não quer que eu cape ele por que?
- Me solta!
- Já perguntei, afeminado, não quer que eu cape ele por que?!
 
Com muita agilidade e força, o fazendeiro puxou a toalha da mesa, jogando tudo pelos ares, torceu-a e começou a amarrar Adalberto. Uma borboleta Danaus Plexicus que havia entrado pela janela pousou no nariz do seu Mané. Com um grito de ódio, o fazendeiro esmurrou o próprio nariz, que sangrou. A borboleta mártir feneceu. Adalberto livrou-se e correu pro quarto. Lá trancou-se com Léo.
Atraídos pelo barulho, os empregados da fazenda, atônitos, olhando seu Mané, com o nariz sangrando.
 
- Seu Mané, foi Adarberto que deu no senhor? – perguntou um capataz. Seu Mane Bilé refletiu.
- Foi.
- Seu Adalberto tá valente assim, seu Mané?
- Valente sim! E tudo já pra fora, que ninguém tem nada a ver com isso.
 
Os empregados correram. Seu Mane respirou. Esgueirou-se no corredor do quarto.
 
- Adalberto, pode sair. Tem capação mais não. Venham pra sala os dois!
 
Léo e Adalberto já chegam na sala com as mochilas e coisas penduradas de última hora. Leo tremia nas bermudas que trocou pelas calças, por causa do vinho. Bermuda comprida, coisa varonil. Mané Bilé o enquadrou e o estudou de novo. Às vezes, a vida mostra que a própria esperança parece causar a solução. E a solução brilhava tênue, muito tênue, no tornozelo do rapaz. Linda. Frágil. Uma correntinha dourada, provavelmente vagabunda. Mané Bile não perdeu tempo.
 
- O que é isso?
- Ahã? Isso? É uma correntinha.
- Eu só vi usar isso meu louro e puta.
- Pai! – gritou Adalberto.
- Foi minha namorada que me deu.
- Deixa de falar dessa porra dessa namorada, que eu não quero saber disso!
- Pai!
 
Seu Mané pegou Léo pela gola.
 
- Olhe aqui dentro do meu olho. Continue olhando.
Léo, como que hipnotizado, deixou-se preso pelo olhar do canguçu.
 
- Na relação com meu filho, você é o namorado ou a namorada?
- ...
- Responda, derrota!
- A namorada.
 
Seu Mané largou Léo, num suspiro.
 
- Adalberto, pode ir. Amanhã vou à cidade e deposito dinheiro na sua conta. Vá se embora e leve a sua namorada pro Rio. Aqui não é lugar pra ela.
 
Adalberto pega a mão do pai e a beija.
- Bença, pai.
- Deus te abençoe, meu filho.
 
Léo e Mané Bilé se olham, estáticos, para o ato da despedida. Sem jeito, Léo oferece a mão para um aperto. Mas Mané Bilé mantém o braço em riste, para um outro beija-mão. Hesitante, Léo a beija.
- Bença, seu Mané Bilé.
- Deus te abençoe, minha filha. Cuide bem de Adalberto e obedeça a ele.
 
Os dois saem com as malinhas pra fora de casa, deixando seu Mane só, no vazio da casa. Cansado de tudo, leva a mão ao peito, e a angústia o faz sentar no chão.
E da porta, eis que surge a flamboyant Sheila Shirley, toda de encarnado, malas em punho, aos gritos.
 
- Mané Bilé, gato-do-mato, cheguei!
 
Vendo Mané no chão e atormentado, ela grita, sem classe alguma.
 
- Manezinho! o que houve, meu Deus?
- Chegue mais pro meio da sala, minha filha. Mais. Aí. Agora baixe as calçola, deixe a periquita livre, levante a saia, abane, abane... e pulverize esta fazenda de mulher!
 

 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A HORA DA VIRADA







Creio que mais que a humanidade inteira, sempre tive medo desse negócio de virar. Desde criança, eu ouvia falar em gente que virou lobisomem, que virou vampiro, que virou sapo. Esse negócio de virar sempre esteve em todas as culturas antigas. Nas aldeias do noroeste da Índia, por exemplo, as pessoas extraordinariamente velhas, quando não eram mais vistas, é que tinham virado tigres. E ganhavam as matas, aparecendo de vez em quando pra espiar os parentes. As transformações sempre surpreenderam, mesmo que sejam coisas naturais, como virar adulto. Haja vista o insuportável “Nossa, como esse menino cresceu! Virou um rapazinho”.

 

Mas dentro de toda essa miríade de transformações, lembro que o que mais me impressionava era esse tipo de conversa:

- Cadê Heloisa?

- Ah, formou-se em médica.

- E Mary-Ann?

- Ah, foi mãe agora há pouco.

- E Lucíola?

- Virou sapatão.

 

Pronto. A maldição estava feita. E eu pensava como é que uma mulher virava sapatão. Porque se uma se graduava estudando na faculdade, outra era mãe depois de copular, e a cidadã virava sapatão como? Que diabo ela fazia pra isso? Se ela virou, é porque antes não era. Ouvi de tudo: problemas em casa, filha de pais separados, fumou muita maconha, juntou-se com gente que não presta. Não me importei muito com esses motivos, não me fazia sentido. Tinha que ser um motivo muito, muito superior. Mas a minha curiosidade não era só essa: era o virar. Qual era o toque de viração? Em que exato momento o ser humano virava sapatão? Os lobisomens eu sei. Vai criando uns pelinhos na mão, os dentes vão crescendo, as garras vão se armando, e daí o bote. Lobisomem, certamente.

 

Imaginei uma moça feminina e frágil de nome Dilaila, por exemplo, indo a um supermercado pra comprar docinhos que a tia pediu. “Mas só docinhos, não me traga mais nada”. Lá foi ela bonitinha, comprando os docinhos. Mas o supermercado estava tão lindo, tão variado, que ela pensou em levar algo mais. Ia sorrindo para tomates, fiambres, alfaces. Aí viu  uma prateleira repleta de macaxeira. E Dilaila pensou: “vou levar uma macaxeirazinha pra ceia de titia”. Contrariando a vontade da tia, a moça pegou na macaxeira – variação da mandioca-brava. Apalpou e sentiu a rudeza, o impulso, a forma roliça. Aí segurou com determinação. Experimentou as forças da terra, a latência do tubérculo enterrado, o toco e o poder. Dilaila ergueu a macaxeira para o alto. Deu-se um pipoco surdo, que só ela ouviu. Pou.

Irritou-se. Pagou no caixa reclamando do preço. Saiu pra rua chutando lata, comprou uma camisa do Sport Clube do Recife e botou por cima. Ficou até meio cangalha. Falou com sua ex-costureira levantando o polegar e entrou no barbeiro. Chegou em casa dando murros na porta.

A tia de dentro perguntou.

- Quem está batendo com força?

- Sou eu, porra.

- Maria do Socorro? Sua voz tá grossa!

- Sou eu, Dilaila, tá mouca?

A tia abriu a porta e viu a figura da sobrinha batendo um punho no outro com a camisa do Sport e o cabelo de Xitãozinho & Xororó.

- Minha filha, você virou sapatão?

- Virei, titia, e eu vim aqui pra te comer!